O modelo STARS: cinco situações, cinco posturas diferentes
Quase todos os erros graves cometidos por médicos gestores nos primeiros meses partilham uma mesma raiz: aplicar a postura errada à situação errada. O diretor que entra com energia de reformador num serviço que estava bem destrói cultura. O diretor que entra com humildade contemplativa num serviço em colapso perde semanas decisivas. Em ambos os casos, a competência individual era boa — o problema foi o diagnóstico inicial da situação organizacional, que ditou tudo o que veio depois.
Para resolver este problema de diagnóstico, Michael Watkins propôs em The First 90 Days (2003) uma tipologia simples a que chamou STARS — acrónimo para cinco situações tipo em que qualquer organização pode estar: Start-up, Turnaround, Accelerated growth, Realignment e Sustaining success. A intuição de Watkins, baseada em décadas de observação de transições executivas, era que cada uma destas situações exige uma postura de liderança radicalmente diferente — e que confundi-las é o erro mais previsível e mais devastador da transição.
"The biggest mistake new leaders make is thinking that what made them successful in the past will make them successful in the new role. The situation has changed; the approach must change too."
Michael Watkins, The First 90 Days (2003)
Clique nos separadores abaixo para explorar cada uma das cinco categorias. Para cada uma encontrará os sintomas distintivos que ajudam a reconhecê-la, a postura recomendada, os riscos típicos de quem se engana no diagnóstico, e um exemplo clínico concreto do que cada situação pode parecer no quotidiano de um serviço hospitalar.
S
Start-up — Construir do zero
Há terreno vazio e tudo está por fazer
Sintomas distintivos
Não há património institucional a preservar
Recursos por alocar, equipa por constituir
Ausência de processos consolidados
Margem ampla de decisão sobre tudo
Expectativas externas elevadas (e por vezes irrealistas)
Postura recomendada
Energia de fundação — visão clara desde o início
Definir cultura e valores explicitamente
Recrutar com critério: as primeiras pessoas determinam tudo
Aceitar que se vai errar e iterar depressa
Riscos típicos
Construir demasiado depressa, sem fundações operacionais
Replicar acriticamente modelos de outros serviços
Subestimar o tempo de constituição da equipa
Prometer mais do que se pode cumprir nos primeiros 12 meses
Exemplo clínico
Abertura de uma nova unidade de hospitalização domiciliária numa ULS que nunca teve nenhuma. Nada existe: nem equipa, nem circuitos, nem articulação com farmácia, nem critérios de admissão. O diretor tem liberdade quase total — e responsabilidade quase total se algo correr mal nos primeiros meses.
T
Turnaround — Recuperar o que está em colapso
A casa está a arder e ninguém pode esperar
Sintomas distintivos
Indicadores em deterioração há vários trimestres
Fugas de profissionais sem reposição
Listas de espera fora de controlo
Conflitos abertos com outros serviços
Queixas formais frequentes
Sensação generalizada de fadiga e resignação na equipa
Postura recomendada
Decisões rápidas e visíveis — não há tempo para 30 dias de escuta
Autoridade explícita, comunicação direta
Estabilizar o sangramento antes de qualquer reorganização
Pequenas vitórias rápidas para reverter o moral
Riscos típicos
Diagnosticar como turnaround o que é, na verdade, realignment
Confundir agitação com ação e tomar decisões inúteis
Gastar capital político em batalhas erradas
Perder a equipa por excesso de pressão num momento já frágil
Exemplo clínico
Um serviço de medicina interna que perdeu seis especialistas em dois anos, com o serviço de urgência a colapsar regularmente, três queixas em curso na ERS, e uma reunião marcada com a Direção Clínica para "ver o que se passa". O novo diretor não tem o luxo de fazer escuta longa — tem de mostrar gestão visível na primeira semana.
A
Accelerated growth — Gerir o crescimento sem o desorganizar
As coisas estão a correr bem — depressa demais
Sintomas distintivos
Recursos a entrar de forma sustentada
Volume de doentes em crescimento acelerado
Novas valências a abrir
Equipa a aumentar rapidamente
Processos antigos começam a ranger sob a nova escala
Postura recomendada
Foco na escalabilidade dos processos, não no conteúdo clínico
Antecipar gargalos antes que se tornem crises
Manter a cultura à medida que entram novos profissionais
Investir em estrutura de coordenação intermédia
Riscos típicos
Achar que o sucesso vai continuar sozinho
Diluir a cultura ao integrar muitas pessoas demasiado depressa
Perder qualidade em troca de quantidade
Não preparar a sucessão de funções intermédias
Exemplo clínico
Uma unidade de oncologia que duplicou o número de doentes em dois anos por referenciação crescente de outras instituições, com novos médicos a chegar trimestralmente. A qualidade clínica mantém-se, mas as marcações começam a falhar, os corredores estão mais densos, e os enfermeiros mais antigos sentem que "isto já não é o que era". Nada está partido — mas tudo precisa de ser reorganizado para a nova escala.
R
Realignment — O perigo silencioso
Funciona — mas está a ser bom no que já não importa
Sintomas distintivos
Indicadores razoáveis, equipa em pé, sem crises visíveis
Ausência de inovação há vários anos
Perda gradual de áreas para outros serviços
Comparação interinstitucional desfavorável que ninguém comenta
Frase recorrente: "sempre fizemos assim"
Postura recomendada
Trabalho diagnóstico cuidadoso — o problema é estrutural, não operacional
Tornar visível o que ninguém quer ver (trabalho adaptativo de Heifetz)
Construir alianças antes de propor mudança
Aceitar que vai gerar desconforto — esse é o trabalho
Riscos típicos
Acreditar nos indicadores razoáveis e não fazer nada
Tratar como sustaining success o que é, na verdade, declínio lento
Tentar mudar tudo de uma vez sem preparação relacional
Confundir resistência legítima com sabotagem
Exemplo clínico
Um serviço de cirurgia geral com indicadores médios e equipa estável, mas que nos últimos cinco anos perdeu progressivamente casos complexos para outras instituições da região, deixou de ter formação avançada, e cuja taxa de inovação cirúrgica é praticamente zero. Ninguém está em pânico — e é precisamente por isso que o problema é grave. A categoria mais difícil de diagnosticar de todas.
S
Sustaining success — Não partir o que funciona
A maior tentação é mexer só para deixar marca
Sintomas distintivos
Indicadores sólidos e consistentes ao longo do tempo
Equipa estável e madura
Cultura forte e identitária
Reputação institucional consolidada
Mecanismos de melhoria contínua já incorporados
Postura recomendada
Humildade explícita — o serviço funcionava antes de si
Escuta longa, mudança subtil
Preservar e desenvolver, não reformar
Identificar ameaças futuras antes que se tornem presentes
Riscos típicos
Mexer só para "deixar marca" e destruir cultura valiosa
Subestimar o trabalho silencioso de manutenção
Aborrecer-se e procurar problemas que não existem
Não preparar a transição para a fase seguinte (que virá)
Exemplo clínico
Uma unidade de cuidados intensivos com indicadores entre os melhores do país há mais de uma década, equipa coesa, baixa rotatividade e cultura de segurança consolidada. O novo diretor sente a tentação enorme de "fazer alguma coisa" para justificar a sua nomeação. A coisa mais difícil — e a mais importante — é resistir a essa tentação durante o tempo necessário para perceber o que realmente precisa de ajuste.
⚠ A observação mais importante: um serviço pode estar em várias categorias ao mesmo tempo
O erro de diagnóstico mais frequente em hospitais é aplicar uma única classificação a um serviço composto. Na realidade, é comum — talvez mesmo a regra — que diferentes partes do mesmo serviço estejam em situações STARS diferentes simultaneamente. Considere o exemplo seguinte de um serviço de medicina interna numa ULS:
Sustaining success
Consulta externa
Tempos de espera dentro do legal, equipa estável, doentes satisfeitos. Não toque.
Turnaround
Internamento
Demora média acima do esperado, conflitos com a urgência, três especialistas em saída. Aja já.
Accelerated growth
Hospital de dia
Volume duplicou em 18 meses, novas terapêuticas a entrar, espaço a ficar pequeno. Estruture.
Implicação prática: o diretor deste serviço tem de ser capaz, na mesma semana, de exercer três posturas diferentes em três contextos diferentes — humildade contemplativa na consulta externa, energia de intervenção no internamento, e estruturação metódica no hospital de dia. Aplicar uma única postura ao serviço inteiro garante que pelo menos duas das três áreas serão mal geridas.
Exercício prático: divida o seu serviço em três ou quatro componentes funcionais (consulta, internamento, urgência, técnicas, formação, etc.) e atribua a cada um a categoria STARS que melhor o descreve neste momento. Se a categoria for a mesma para todos, reveja o exercício — provavelmente está a pintar com uma única cor uma realidade mais matizada. Repita o exercício de seis em seis meses: as categorias mudam, e o diagnóstico inicial perde validade mais depressa do que se pensa.