O iceberg do poder organizacional

A metáfora do iceberg é antiga em ciências sociais — terá sido popularizada por Edward T. Hall, antropólogo americano, no seu livro Beyond Culture (1976), para descrever o que é visível e o que é tácito numa cultura. Aplicada às organizações, a imagem é particularmente exata: o organograma, os títulos, os despachos, as atas — tudo o que é fácil de ver, fotografar e auditar — corresponde aproximadamente a um décimo do que realmente estrutura o comportamento organizacional. Os restantes nove décimos estão abaixo da linha de água: invisíveis, informais, mas determinantes.

Há uma razão estrutural para esta proporção, e não é acidental. As organizações formais são projetadas para serem auditáveis — têm de poder mostrar a quem as financia, fiscaliza ou regula que cumprem regras, têm responsáveis identificáveis, têm processos rastreáveis. Esta exigência produz, inevitavelmente, uma camada visível: o organograma, as assinaturas, os procedimentos escritos. Mas as organizações também têm de funcionar — e para isso desenvolvem, ao longo do tempo, um conjunto de mecanismos paralelos, não documentados, que fazem o trabalho real de coordenação, de distribuição de recursos, de gestão de conflitos e de transmissão de cultura. Esta camada não foi desenhada por ninguém. Foi sedimentando, ao longo de anos, através de interações repetidas, crises resolvidas, favores prestados e memórias coletivas nunca escritas.

"In any organization, there is the official version of how things work, and there is how they actually work. The gap between the two is where management really happens." Henry Mintzberg, em entrevista ao Harvard Business Review (2009)
linha de água — o que é visível VISÍVEL · ~10% Organograma Cargos, regulamentos Atas, despachos SUBMERSO · ~90% Redes de confiança Reputação acumulada Memória institucional Controlo de informação Alianças tácitas Rituais não-escritos Histórico de favores Códigos profissionais Lealdades pessoais

A maior dificuldade para um diretor de serviço novato não é saber que a parte submersa existe — qualquer pessoa com algum tempo de hospital intui a sua presença. A dificuldade real é ver os contornos específicos da parte submersa da sua própria instituição. Esta camada não está documentada em lado nenhum, não é ensinada formalmente, não pode ser perguntada diretamente sem soar inadequada, e demora meses a descodificar mesmo para quem tem boa capacidade de observação. É por isso que os primeiros meses num cargo de gestão devem ser, em grande parte, meses de escuta ativa — e não, como muitas vezes acontece, meses de afirmação acelerada.

O que está acima da linha de água

Organograma e cargos formais
Regulamentos internos e despachos
Atas, ofícios, circulares
Procedimentos documentados
Indicadores reportados
Contratos-programa e metas

O que vive abaixo da linha de água

Redes de confiança interpessoal
Reputação individual acumulada
Memória de conflitos antigos
Controlo de informação crítica
Alianças entre serviços e profissões
Histórico de favores e dívidas tácitas
Rituais não-escritos (quem fala primeiro, quem tem direito a quê)
Códigos profissionais não verbalizados

Há quatro indicadores práticos que ajudam a identificar quando se está a tocar em algo da parte submersa, mesmo sem o ver claramente. Primeiro: uma proposta tecnicamente impecável encontra resistência inexplicável — alguém abaixo da água tem interesse contrário, e o organograma não diz quem. Segundo: uma decisão "óbvia" é repetidamente adiada com motivos que mudam — o motivo real não é nenhum dos invocados. Terceiro: alguém sem cargo significativo parece ter influência desproporcional sobre o resultado de uma discussão — está a operar com recursos da parte submersa. Quarto: uma aliança ou bloqueio surge entre dois atores que, pelo organograma, não têm razão óbvia para se coordenar — existe algo abaixo da linha de água que os une.

Uma observação contraintuitiva: a parte submersa do iceberg não é nem boa nem má em si mesma. Pode ser o que protege o serviço de uma decisão administrativa absurda vinda do exterior — e pode ser o que bloqueia uma reforma necessária por simples inércia corporativa. O mesmo mecanismo serve as duas funções. Um diretor de serviço experiente não tenta destruir a parte submersa (não conseguiria, e a tentativa seria contraproducente); aprende a lê-la, a respeitar o que nela há de legítimo, a contornar o que nela há de disfuncional, e a trabalhar com ela em vez de contra ela.