Gestão pública vs. gestão privada: porque é que importar sem filtro não funciona

Há uma frase que se ouve com frequência perturbante em corredores hospitalares, em cursos de gestão e em editoriais de opinião: «os hospitais deviam ser geridos como empresas». A frase é quase sempre bem-intencionada e quase sempre errada — não porque a gestão empresarial seja irrelevante, mas porque parte de um pressuposto falso: que as diferenças entre o setor público e o setor privado são superficiais, culturais, ou redutíveis a «mentalidade». Não são. São estruturais — estão inscritas na lei, nos mecanismos de financiamento, nas regras de contratação, na natureza da accountability e no próprio objetivo da organização.

A distinção não é nova nem é portuguesa. Existe uma tradição intelectual consolidada — de Woodrow Wilson (1887) a Christopher Hood e o New Public Management (1991), até ao Public Value de Mark Moore (Harvard, 1995) — que enquadra precisamente estas diferenças e as suas consequências para quem gere. O médico gestor que lê um MBA convencional e tenta aplicá-lo sem filtro ao seu serviço vai encontrar resistência — não porque a equipa seja obtusa, mas porque as ferramentas não foram desenhadas para este contexto. Conhecer as diferenças não é resignar-se a elas. É a condição prévia para saber o que importar, o que adaptar e o que descartar.

«The equivalent of profit for the public manager is the creation of public value — a concept that includes not only efficiency and results, but also legitimacy, equity, and institutional trust.» Mark H. Moore, Creating Public Value (1995)

A tabela abaixo compara sete dimensões-chave. Clique em cada linha para ver porque é que essa diferença importa na prática — com exemplos concretos do que acontece quando se ignora.

Dimensão
SNS / Gestão pública
Setor privado
Porque importa na prática

No privado, um gestor que identifica uma oportunidade pode realocar orçamento em semanas. No SNS, a mesma realocação exige aprovação do CA, pode esbarrar em rubricas vedadas, e frequentemente só é possível no ciclo orçamental seguinte — ou seja, daqui a meses. Isto não torna o planeamento inútil; torna-o mais importante, porque a janela de ação é estreita e previsível. Quem não antecipa o ciclo orçamental chega sempre tarde.

Impacto na gestão diária
Porque importa na prática

Esta é provavelmente a diferença com maior impacto quotidiano. No privado, o gestor que precisa de um internista contrata-o. No SNS, o diretor de serviço que precisa de um internista inicia um processo que envolve aprovação do CA, autorização de tutela, concurso público, período de candidatura, prova de conhecimentos, nomeação e início de funções — frequentemente 6 a 12 meses. Entretanto, o serviço funciona com o que tem. O conceito de «gestão de recursos humanos» no SNS é, na prática, gestão da escassez crónica de recursos humanos — uma disciplina que nenhum MBA ensina.

Impacto na gestão diária
Porque importa na prática

Quando o preço é fixado externamente, a única variável que o gestor controla é o custo. Sob o regime histórico de pagamento por GDH, isso traduzia-se numa pressão permanente para baixar o custo por episódio — fazer mais barato, com o risco de colidir com a qualidade se não fosse gerido com inteligência — e, em simultâneo, num incentivo perverso para multiplicar episódios faturáveis: mais altas significavam mais receita.

A reforma de financiamento das ULS, generalizada em 2024, inverteu o sinal. Cada Unidade Local de Saúde recebe agora uma capitação ajustada pelo risco — um orçamento global calculado a partir da população inscrita, ponderado por idade, sexo, multimorbilidade e privação socioeconómica. O hospital deixou de ser, do ponto de vista financeiro, um centro de receita por produção; passou a ser uma componente de custo dentro de um envelope fechado pela população servida. A pergunta estratégica deslocou-se: já não é «como faço este episódio mais barato?», mas «este episódio era evitável?», «podia ter sido resolvido nos cuidados primários?», «foi clinicamente apropriado?». A excelência, no novo enquadramento, mede-se menos pelo melhor cuidado por episódio do que pela menor taxa de internamentos evitáveis com resultados clínicos aceitáveis — uma lógica próxima do modelo Kaiser Permanente, nos Estados Unidos, e dos Integrated Care Systems ingleses.

Esta inversão tem dois efeitos que importa nomear. O primeiro é criar um risco simétrico do anterior: onde os GDH incentivavam o sobretratamento, a capitação pode incentivar o subtratamento, a seleção adversa de doentes e a transferência silenciosa de custos para fora do perímetro contratualizado. O segundo é elevar drasticamente a exigência técnica do ajustamento pelo risco: se a fórmula de capitação não captar bem a carga real de doença da população, as ULS que servem populações mais envelhecidas, mais multimórbidas ou mais desfavorecidas ficam estruturalmente subfinanciadas — e o gestor responde por défices que o seu universo de doentes torna inevitáveis.

Em qualquer dos regimes, contudo, a conclusão para o diretor de serviço mantém-se: no privado, um serviço excelente pode cobrar mais; no SNS, um serviço excelente e um serviço medíocre recebem o mesmo — por GDH antes, por fatia de capitação agora. O incentivo para a excelência tem de vir, portanto, de outro sítio — cultura profissional, governação, liderança — porque o preço, em qualquer das suas formas administrativas, não o dá.

Impacto na gestão diária
Porque importa na prática

No privado, a pergunta última, na sua formulação rigorosa, é «este negócio remunera o capital investido acima do seu custo?» — ou, em linguagem corrente, «compensa, do ponto de vista do acionista, mantê-lo?». A formulação varia, mas tem uma característica decisiva: é uma pergunta única e admite uma métrica integradora (retorno ajustado ao risco) que permite hierarquizar decisões. No SNS, as perguntas são simultâneas e por vezes incompatíveis: «é clinicamente correto?» (accountability profissional), «é legal?» (accountability administrativa), «é politicamente sustentável?» (accountability política), «é percebido como justo?» (accountability social). Uma decisão pode ser eficiente, legal e clinicamente correta — e ainda assim ser politicamente inviável se a comunicação social a enquadrar de forma desfavorável. Gerir no público é gerir sob múltiplas lentes de escrutínio em simultâneo, sem poder escolher qual delas ignorar.

Impacto na gestão diária
Porque importa na prática

O lucro é uma bússola: todas as decisões podem ser avaliadas contra ela. No SNS, não existe bússola equivalente. O diretor de serviço tem de otimizar simultaneamente resultados clínicos (qualidade), acesso (equidade), custo (eficiência), satisfação (experiência), e confiança institucional (legitimidade) — e estas cinco dimensões conflituam regularmente entre si. Melhorar o acesso pode piorar a qualidade; reduzir custos pode piorar a experiência; ser clinicamente excelente pode ser alocativamente ineficiente. Gerir no público é gerir sem métrica unificadora — e essa é, talvez, a diferença mais profunda de todas.

Impacto na gestão diária
Porque importa na prática

No privado, a cadeia de decisão é: identifica oportunidade → decide → executa → presta contas. No SNS, a cadeia é: identifica oportunidade → propõe → espera autorização → negocia condições → recebe (talvez) autorização parcial → executa com restrições → presta contas a múltiplas entidades. Esta diferença explica porque é que o plano no SNS não é uma ordem de execução — é um instrumento de argumentação. As competências de negociação, tradução institucional e gestão de expectativas são, no público, tão importantes como as competências técnicas de gestão.

Impacto na gestão diária
Porque importa na prática

No privado, um doente insatisfeito muda de hospital — e leva consigo a receita. No SNS, um doente insatisfeito reclama (ou não), mas continua no sistema. Isto cria um incentivo mais fraco para a satisfação do utente como motor de melhoria — e exige que a pressão para melhorar venha de outro sítio: governação, profissionalismo, cultura de qualidade, auditoria clínica. Onde não há saída de mercado, a qualidade depende de voz e de governação — conceitos que Albert Hirschman formalizou em Exit, Voice, and Loyalty (1970).

Impacto na gestão diária

Quatro coisas que o MBA ensina e que não funcionam sem filtro no SNS

Não porque sejam erradas — porque os pressupostos que as sustentam não se verificam no setor público de saúde.

1«Contrate os melhores»

Pressupõe capacidade de recrutar livremente e de oferecer remuneração competitiva. No SNS, contrata-se quem está disponível, quando o concurso finalmente abre, ao salário que a tabela impõe. A gestão de RH no público é gestão do possível, não do desejável.

2«Despache os underperformers»

Pressupõe poder disciplinar efetivo e mecanismos de saída. No SNS, despedir é praticamente impossível, processos disciplinares são longos e desgastantes, e o «underperformer» permanece na equipa anos após ter sido identificado. A gestão de desempenho no público é gestão relacional, não processual.

3«Oriente-se pelo cliente»

Pressupõe que o utente escolhe, compara e pode mudar de prestador. No SNS, o utente tem direitos constitucionais mas escolha limitada. A «orientação ao cliente» como motor de melhoria funciona de forma muito atenuada — a melhoria tem de vir de governação e cultura, não de pressão de mercado.

4«Meça o ROI de tudo»

Pressupõe que o retorno é mensurável numa dimensão única (financeira). No SNS, o retorno é multidimensional (clínico, social, político, equitativo) e frequentemente contraditório. Medir é indispensável — mas medir apenas o que é quantificável é ignorar metade do que importa.

Mark Moore e a criação de valor público

Se o equivalente do lucro no privado é o retorno financeiro, qual é o equivalente no público? Moore respondeu em 1995 com um conceito que se tornou central na administração pública contemporânea: valor público. Não é apenas eficiência. Não é apenas resultado clínico. É a combinação de resultado, equidade, legitimidade e confiança institucional — dimensões que não se somam numa folha de cálculo mas que, quando falham, destroem tudo o resto.

Setor privado

Objetivo = maximizar retorno financeiro (lucro, EBITDA, ROI). Métrica unificadora. Horizonte temporal definido pelo ciclo de investimento.

SNS / Gestão pública

Objetivo = criar valor público: resultados clínicos + equidade de acesso + legitimidade processual + confiança dos cidadãos no sistema. Nenhuma métrica unificadora. Horizonte = permanente.

Para o diretor de serviço, isto tem uma consequência prática: o seu trabalho não é apenas produzir bons resultados clínicos ao menor custo. É fazê-lo de forma que mantenha a confiança dos profissionais, dos utentes e da comunidade no serviço público de saúde. Esta segunda dimensão — que a gestão privada não precisa de considerar da mesma forma — é estruturante e condiciona muitas das decisões que este livro discute.

A regra que resume tudo: a boa gestão em saúde pública não é gestão privada aplicada ao público — é gestão geral traduzida para um contexto com constrangimentos específicos, accountability múltipla e um objetivo que nenhuma folha de cálculo captura inteiramente. O médico gestor que percebe isto tem uma vantagem dupla: sabe usar as ferramentas de gestão (porque as aprendeu), e sabe quando não as usar (porque conhece o terreno). O que importar, adapte. O que não encaixa, descarte sem culpa. E o que funciona no seu contexto específico, defenda — mesmo que nenhum manual o tenha previsto.