O Garbage Can Model: como as decisões realmente acontecem num hospital

Em 1972, três investigadores — Michael Cohen, James March e Johan Olsen — publicaram um dos artigos mais influentes da teoria organizacional do século XX. Estudavam universidades americanas e notaram algo perturbador: as decisões importantes não seguiam o modelo racional clássico. Em vez disso, pareciam emergir de um processo quase caótico, em que problemas, soluções, participantes e oportunidades de decisão circulavam de forma independente — juntando-se de forma imprevisível, tal como objetos misturados num caixote do lixo.

Os autores descreveram as organizações em que isto acontece como organized anarchies — anarquias organizadas. Três características definem-nas: objetivos múltiplos e por vezes contraditórios (qualidade, acesso, eficiência, segurança, sustentabilidade), tecnologias de trabalho pouco claras (o que funciona em cada caso nem sempre é óbvio) e participação fluida nas decisões (quem está na sala varia de reunião para reunião). O hospital é, neste quadro, um exemplo quase perfeito.

Para o médico que entra em gestão, esta é uma das descobertas mais libertadoras — e mais incómodas. Libertadora, porque explica por que tantas propostas excelentes falham sem razão aparente, e por que outras medíocres passam sem esforço: não é (apenas) mérito técnico, é timing e convergência. Incómoda, porque contradiz toda a formação clínica, que nos ensinou a decidir através de algoritmos, evidência e raciocínio estruturado — e não de janelas de oportunidade.

"As organized anarchies, ... a decision is an outcome ... of several relatively independent streams within an organization." Cohen, March & Olsen (1972), "A Garbage Can Model of Organizational Choice"

O modelo propõe que, em vez de uma sequência linear, existem quatro fluxos independentes a circular simultaneamente dentro da organização — e uma decisão só emerge quando os quatro se cruzam no mesmo ponto.

1 · Problemas
o que incomoda
Listas de espera em cardiologia
Falta de internistas no SU
Reinternamentos a 30 dias
2 · Soluções
ideias disponíveis
Protocolo de fast-track
Consulta partilhada com MGF
Hospitalização domiciliária
3 · Participantes
quem está disponível
Diretor de serviço motivado
Diretor clínico apoiante
Enfermeiro-chefe aliado
4 · Oportunidades
janelas de decisão
Reunião de contratualização
Incidente crítico recente
Novo ciclo orçamental
↓ ↓ ↓ ↓
DECISÃO ORGANIZACIONAL
Emerge quando os quatro fluxos convergem no mesmo momento

Repare no ponto essencial: os fluxos existem em paralelo e de forma independente. O hospital tem sempre problemas por resolver, soluções à espera de aplicação, pessoas dispostas a agir e momentos institucionais em que a decisão é possível. Mas raramente, muito raramente, estes quatro elementos estão disponíveis simultaneamente para o mesmo tema. É por isso que o mesmo pedido de equipamento pode ser aprovado num trimestre e bloqueado noutro — o problema não mudou, mudou o contexto.

Os Centros de Responsabilidade Integrada (CRI) são, em Portugal, o exemplo quase perfeito deste modelo em ação. A ideia existe desde 1999 e voltou a ser relançada em 2017, com novo enquadramento em 2023 e 2024. O conceito sempre foi sólido, as soluções técnicas conhecidas, os profissionais interessados existiam. Mas a implementação permaneceu heterogénea durante mais de duas décadas — não porque faltasse mérito à proposta, mas porque os quatro fluxos raramente coincidiram no mesmo momento institucional.

O que isto muda para o diretor de serviço: uma proposta não é apenas "boa" ou "má" em abstrato — é apresentável ou não apresentável num determinado momento. Parte do trabalho do gestor médico é reconhecer janelas de oportunidade (reuniões de monitorização, incidentes críticos, mudanças de liderança, ciclos orçamentais, visitas externas, pressão mediática) e ter propostas já preparadas, com apoio pré-negociado, antes de a janela se abrir.