01
Anunciar uma visão antes de ter um diagnóstico
É a tentação de mostrar serviço. Em duas semanas, o novo diretor convoca uma reunião geral, apresenta cinco eixos estratégicos, distribui responsabilidades. Os colegas ouvem, educadamente, e pensam: este não percebeu nada do que se passa cá dentro. A credibilidade é gasta antes sequer de ter sido construída.
02
Mudar coisas que funcionam, só para marcar território
O reflexo de quem chega novo é mexer. Mas mexer no que funciona é a forma mais rápida de criar inimigos sem ganhar nada em troca.
Regra prática: nos primeiros 90 dias, só se mexe no que está claramente partido — e mesmo aí, com explicação.
03
Tentar agradar a todos
É tentador. É também impossível. Um serviço clínico tem interesses estruturalmente contraditórios — entre quem prefere mais consultas e quem prefere mais blocos, entre especialistas e internos, entre urgência e programado. Tentar agradar a todos significa decidir nada — e isso, em gestão, é a pior decisão possível.
04
Subestimar a enfermagem
A enfermagem tem uma cadeia hierárquica própria. Um diretor que trate a enfermeira-chefe como subordinada perde, em duas semanas, um dos aliados mais importantes que poderia ter. A enfermagem vê os fluxos reais do serviço de uma perspectiva que os médicos raramente têm acesso.
05
Demitir-se da clínica
Há médicos que, ao assumir o cargo, reduzem drasticamente a actividade assistencial — por excesso de trabalho administrativo ou por convicção de que «agora sou gestor». Em saúde, o gestor que perde a sua identidade clínica perde também a base sobre a qual a sua autoridade assenta.
A proporção certa varia. Mas zero não é nunca a resposta.
06
Decidir sozinho problemas colectivos
Há decisões que um diretor pode e deve tomar sozinho. Há outras — escalas, distribuição de áreas funcionais, prioridades de investimento — em que decidir sozinho, mesmo com razão, gera mais resistência do que valor.
A decisão consultiva não é fraqueza: é uma forma de inteligência política.
07
Ignorar a relação com a administração
Alguns diretores novos colocam-se em postura defensiva ou hostil em relação à administração, como se isso os tornasse mais legítimos perante os pares. Não torna. Torna-os apenas irrelevantes nas decisões que importam. A relação com quem decide o orçamento e os recursos humanos é parte do trabalho, não uma traição às bases.
Nota à margem
Erros que não são do gestor: constrangimentos sistémicos
Os sete erros anteriores são todos individuais. Mas nem todos os erros de uma transição têm origem no gestor — alguns têm origem na organização que o nomeia. Os padrões mais frequentes são conhecidos:
Padrão 1
Nomeações feitas sem mandato explícito
Padrão 2
Ausência de qualquer forma de integração institucional
Padrão 3
Expectativas contraditórias entre a direcção clínica e a administração, nunca resolvidas antes da chegada do novo diretor
Padrão 4
Falta de orçamento de transição
Reconhecê-los não muda as circunstâncias, mas muda o que se faz com elas. Se o mandato vai estar implícito, force a conversa antes de começar a trabalhar. Se não há integração institucional, construa a sua própria.