Seis caminhos pelos quais uma decisão tecnicamente reversível se torna praticamente irreversível — e uma matriz para calibrar a postura adequada.
Conhecer estes caminhos é uma das competências mais úteis da gestão clínica madura. Não para os evitar a todo o custo — alguns são desejáveis e necessários —, mas para os reconhecer quando estão a operar, e calibrar deliberadamente o grau de irreversibilidade que se está a injectar na decisão.
Quando a decisão entra num contrato formal — com a tutela, com a ULS, com um fornecedor —, voltar atrás passa a exigir renegociação formal.
Exemplo: piloto de consulta que aparece nos indicadores contratuais antes de estar consolidado.
Anúncios públicos, comunicados internos, apresentações solenes — todos elevam o custo simbólico do recuo. O que foi dito alto custa muito a desdizer.
Exemplo: reorganização anunciada como "novo modelo" quando podia ter sido apresentada como "experiência de três meses".
Quando há recursos significativos já aplicados — equipamento, formação, tempo médico —, o recuo enfrenta a resistência da falácia do custo afundado.
Exemplo: equipamento adquirido especificamente para uma actividade que se revela menos viável que o previsto.
Quando a decisão depende de uma pessoa contratada, mobilizada ou promovida, recuar implica gerir o impacto humano e as expectativas criadas.
Exemplo: contratação para área específica que se revela menos prioritária, com o profissional já integrado.
Decisões com cobertura externa — comunicação social, autarquia, associações de doentes — incorporam expectativas de terceiros sobre as quais o decisor já não tem controlo.
Exemplo: nova consulta apresentada em conferência de imprensa local antes de estar consolidada.
Quando a decisão se torna marca distintiva de uma direcção ou administração, o recuo é lido como derrota, mesmo quando seria tecnicamente acertado.
Exemplo: reforma identificada com o nome do diretor — voltar atrás passa a parecer admissão pessoal de erro.
A combinação destas duas dimensões determina a postura apropriada
"A boa decisão não é necessariamente a que parece mais corajosa no momento inicial. Muitas vezes é a que permite avançar sem destruir a possibilidade de corrigir."
— do capítulo, sobre decidir sob incerteza