Dois andares, duas perguntas completamente diferentes — e instrumentos diferentes para cada uma.
A confusão acontece nas duas direcções, com igual frequência e igual dano.
O erro não é achar que um andar é melhor que o outro — é aplicar o instrumento de um à pergunta do outro. E quem comete este erro quase sempre o comete de boa-fé: tem o instrumento certo para outra pergunta e acredita que resolve esta.
"O nosso serviço tem os melhores resultados — logo merece mais capacidade"
Demonstrar qualidade dentro de um percurso clínico é confundido com argumento para crescer face a outras áreas. Mas um serviço pode estar impecavelmente organizado e ainda assim não ser onde o próximo euro do sistema rende mais. Excelência interna é argumento de melhoria contínua — não de prioridade orçamental entre áreas.
"Esta doença está nos programas prioritários — logo o cuidado está bem feito"
Pertencer a uma área de alta prioridade no sistema é confundido com garantia de que o cuidado dentro dessa área está bem organizado. Mas uma área pode ser prioritária no sistema e estar cheia de desperdício, tempos de espera desnecessários e etapas mal sequenciadas. Alta prioridade sistémica não garante bom percurso clínico.
Cada decisão abaixo pertence a um dos dois andares. Classifique — e veja por que o instrumento do outro andar não a resolvia.
A competência decisiva não é dominar um andar — é saber, perante uma decisão concreta, em qual dos dois ela vive. Porque a pergunta que se faz determina o instrumento que se usa, e usar o instrumento do andar errado produz respostas sofisticadas que não servem.
1 · A nossa via verde do AVC perde tempo entre a chegada e a imagem de TC. Como reorganizamos as etapas para reduzir o tempo até ao tratamento?
2 · Temos uma vaga de financiamento para reforçar uma área. Damo-la à cardiologia de intervenção ou à saúde mental comunitária?
3 · No cuidado da diabetes, devíamos medir não só a HbA1c mas também a capacidade do doente de viver sem limitações — função, fadiga, autonomia?
4 · O orçamento de medicamentos não chega para tudo. Que terapêuticas devem ter prioridade quando não podemos financiar todas?
5 · No percurso oncológico, integrar cuidados paliativos precoces melhora resultados e reduz internamentos evitáveis. Devemos reorganizar o percurso para o incluir?