Os três mecanismos no mesmo eixo — o que os distingue de raiz

Risco moral

o preço deixou de travar o uso

Quem age

Quem já está coberto — o utente ou o prestador

Quando

Depois da cobertura, no momento do uso

A alavanca

Preço nulo no ponto de utilização. Usar deixou de custar a quem usa.

Lado do mercado

Sobretudo da procura — consome-se mais do que se pagasse.

Seleção adversa

quem se cobre não é aleatório

Quem age

Quem decide aderir a uma cobertura voluntária

Quando

Antes de qualquer uso, no momento da adesão

A alavanca

Quem antecipa mais risco tem mais incentivo para se cobrir. A informação sobre o risco é privada.

Lado do mercado

Da composição — quem entra na carteira, não quanto usa.

Procura induzida

a oferta molda a quantidade

Quem age

Quem presta — usando a sua vantagem informativa

Quando

No encontro clínico ou em resposta à capacidade instalada

A alavanca

Quem sabe mais recomenda; incentivos de volume empurram para mais. A procura é interpretada por quem a serve.

Lado do mercado

Da oferta — é quem presta que influencia quanto se utiliza.

O que cada mecanismo tem que os outros não têm

As duas formas do risco moral — que muitos não distinguem

↓ Forma fraca em saúde

Risco moral ex ante

Estar coberto reduziria o incentivo a prevenir. Quase ninguém se cuida menos por ter cobertura — ninguém quer adoecer só porque está segurado. Esta forma, central noutros seguros, é genuinamente ténue na saúde.

↑ Forma dominante em saúde

Risco moral ex post

Já doente e coberto, consome-se mais cuidado do que se cada episódio fosse pago. É esta a forma que realmente importa em saúde — e a razão pela qual a disciplina vem do desenho do acesso, não do preço.

A dinâmica que só a seleção adversa tem — a espiral da morte

1

Seguro fixa prémio médio para todos

2

Saudáveis acham que não vale a pena e saem

3

A carteira fica mais doente; o prémio sobe

4

Mais saudáveis saem perante o prémio maior

↻ …o ciclo repete-se até o seguro se tornar inviável — mercado destruído por um problema de composição

exercício — os três mecanismos a operar ao mesmo tempo

Na realidade nunca aparecem isolados. Identifique qual mecanismo está por trás de cada efeito.

A situação

Um subsistema voluntário passa a cobrir uma nova tecnologia de diagnóstico dispendiosa. No ano seguinte, observam-se cinco efeitos. Clique em cada um para identificar qual dos três mecanismos está por trás — e descobrirá que a mesma situação contém os três.

○ Risco moral
○ Seleção adversa
○ Procura induzida

Clique em cada efeito para o desvendar — três mecanismos escondidos em cinco observações.

?Pessoas que já suspeitam vir a precisar da tecnologia inscrevem-se no subsistema antes da cobertura entrar em vigor.
Seleção adversa
A pista: agem antes do uso, no momento da adesão. Quem entra não é aleatório — é quem antecipa o risco. O problema está na composição de quem se cobre, não em quanto cada um usa depois.
?Entre os já cobertos, o número de exames sobe — porque agora usá-los não tem custo no ponto de utilização.
Risco moral (ex post)
A pista: o que mudou foi o preço para quem já está coberto. Não há fraude — há resposta racional a um incentivo. Consome-se mais porque usar deixou de custar a quem usa.
?Prestadores que possuem o equipamento e são pagos por exame começam a recomendá-lo com mais liberalidade.
Procura induzida pela oferta
A pista: foi quem presta — não quem recebe — que mudou de comportamento. A vantagem informativa mais o incentivo financeiro moldam a quantidade. A procura é interpretada por quem a serve.
?Os aderentes mais saudáveis, vendo o prémio subir, começam a abandonar o subsistema.
Seleção adversa (a espiral em ação)
A pista: a saída dos saudáveis perante o prémio é o passo seguinte da espiral. Mais uma vez é a composição que muda — agora pela porta de saída. Mesmo mecanismo, fase posterior.
?São pedidos exames de seguimento que não seriam feitos se cada um saísse diretamente do bolso do doente.
Risco moral (ex post)
A pista: de novo, o uso responde ao preço nulo no ponto de utilização. Note-se que coexiste com a procura induzida no mesmo exame — distinguir qual domina exige perguntar se foi o doente que pediu ou o prestador que recomendou.

Os três mecanismos, na mesma situação — e cada um pede uma correção diferente. A seleção adversa pede regras de adesão e mutualização; o risco moral pede desenho de acesso e adequação; a procura induzida pede revisão de incentivos e de indicação. Aplicar a correção da seleção adversa ao problema da procura induzida não corrige nada — e é exactamente o tipo de erro que nasce de tratar os três como se fossem um só.

Cada mecanismo pede a sua própria correção

A correção que resolve um é inútil ou prejudicial para os outros — a distinção não é académica.

Risco moral
↑ O que funciona

Critérios de adequação, circuitos que orientam para o nível certo de cuidados. Disciplina a utilização sem reintroduzir o preço.

↓ O que falha

Mudar regras de adesão (corrige seleção adversa, não isto). Ou culpabilizar o utente — o comportamento é racional, não malicioso.

Seleção adversa
↑ O que funciona

Regras de adesão, períodos de carência, mutualização ampla, cobertura universal. Corrige a composição de quem se cobre.

↓ O que falha

Redesenhar circuitos clínicos (corrige risco moral, não isto). O problema está em quem entra, não em quanto se usa.

Procura induzida
↑ O que funciona

Revisão de incentivos, critérios de indicação, separação entre quem indica e quem beneficia. Atua sobre quem molda a quantidade.

↓ O que falha

Aumentar capacidade para "responder à procura" — pode agravar, porque parte dessa procura foi induzida pela própria oferta.

No SNS, os três não pesam igual

Num sistema universal financiado por impostos, a seleção adversa quase não opera dentro do próprio SNS: a adesão não é voluntária, o contributo não depende do risco, e não há porta de saída para os saudáveis. A universalidade obrigatória é, por desenho, o antídoto perfeito contra a espiral. Mas regressa no instante em que a adesão se torna uma escolha — nos subsistemas, nos seguros privados, nas coberturas complementares.

Dentro do SNS, o gestor deve focar-se no risco moral e na procura induzida. O risco moral porque o preço no ponto de uso é corretamente nulo; a procura induzida porque a assimetria de informação e os incentivos de produção persistem num sistema público. A seleção adversa é sobretudo uma questão de fronteira — relevante para entender o ecossistema, não a operação corrente do serviço.