Construa um QALY — a área que combina tempo e qualidade

qualidade de vida →
saúde plena, mesma duração
2,0
duração (anos) →
Anos de vida 4 anos

quanto tempo a intervenção acrescenta ou mantém

Qualidade de vida 0,50

1 = saúde plena · 0 = morte · entre os dois, todos os estados

4 anos × 0,50 de qualidade = 2,0 QALY

O rectângulo verde é o valor real; o tracejado azul é o que seria saúde plena. A diferença entre os dois é a qualidade que a doença subtrai.

a equivalência que inquieta — caminhos diferentes, mesmo número

Quatro situações humanamente muito distintas. Para o QALY, exactamente o mesmo valor.

Clique em cada situação. Todas produzem 4 QALY — e descrevem, contudo, experiências de vida muito distintas. O instrumento que as torna comparáveis é o mesmo que as trata como equivalentes.

O rectângulo acima muda de forma — mas não de área. Para o sistema de saúde que decide com QALY, estas quatro vidas são indistinguíveis. Para quem as vive, não poderiam ser mais diferentes. Nenhuma das duas afirmações é falsa — e é por isso que o QALY exige ser usado com consciência do que deixa de fora.

Como se mede a qualidade de vida — e a régua que surpreende

Aposta padrão

standard gamble

Que risco de morte aceitaria correr num tratamento que, se resultasse, lhe devolveria saúde plena? Quanto maior o risco aceite, pior se considera o estado actual.

"Aceitaria uma operação com 20% de risco de morte para ficar curado? E com 40%?"

Troca de tempo

time trade-off

Quantos anos de vida trocaria por viver menos tempo, mas em saúde plena? Mais anos a sacrificar = pior o estado em que se vive.

"Preferia 10 anos como está, ou 7 anos em saúde plena?"

Questionário padronizado

EQ-5D e afins

A pessoa classifica-se em dimensões fixas (mobilidade, dor, ansiedade...) e um algoritmo pré-calibrado converte o perfil num peso. É o mais usado na prática, por ser rápido e reprodutível.

"Tem problemas em andar? Dor moderada? Ansiedade ligeira?" → o algoritmo faz a conta.

A régua do QALY — e o que existe abaixo de zero

< 0 · pior que a morte
0 · morte
1 · saúde plena
estados avaliados como piores
do que não estar vivo
ausência total de
limitação ou sofrimento

A escala não pára no zero. Alguns estados — sofrimento extremo, dependência total, certos quadros terminais — são consistentemente avaliados pelas próprias pessoas como piores do que a morte, recebendo pesos negativos. Consequência prática: uma intervenção que prolonga a vida num estado assim avaliado pode, na aritmética do QALY, destruir saúde em vez de a criar. É um dos pontos onde a frieza aparente do número toca questões humanas das mais profundas — e um dos motivos pelos quais o número nunca pode decidir sozinho.