Um parecer fictício, do tipo que chega a qualquer comissão. Clique numa lente para ver o truque que ela expõe e a pergunta que o desarma.
Comparar contra o que já ninguém usaria
O parecer mostra superioridade face ao placebo — mas em quase nenhuma decisão real a alternativa é "não fazer nada". Já existe, quase sempre, um tratamento-padrão. Contra o placebo, quase tudo brilha. A comparação honesta é contra a melhor alternativa realista que se faria se este fármaco não existisse — e é frequentemente essa que falta, ou aparece num quadro secundário sem destaque.
Medir o que se move depressa, não o que importa
Uma redução de 40% num marcador laboratorial impressiona — e pode não significar nada que o doente sinta. Um marcador é um substituto de um resultado real (viver mais, viver melhor, evitar um evento). Escolhem-se substitutos porque mudam mais e mais depressa do que os desfechos que de facto contam. Um número grande num marcador pode traduzir-se em semanas de sobrevida — ou em coisa nenhuma na vida de quem é tratado.
Um rácio sem o seu comparador e sem o seu orçamento
O ICER de 22 000 €/QALY "abaixo das referências" tem dois buracos. Primeiro: foi calculado contra o placebo — e um ICER contra o comparador errado não vale quase nada, por mais bonito que pareça. Segundo: 18 000 € por doente vezes quantos doentes? Um óptimo ICER por doente nada diz sobre o dinheiro total que a decisão exige. Um ICER sem o seu comparador e sem o impacto orçamental é meia conta a fingir-se de conta inteira.
Custos médios que não são o custo de ninguém
"Valores médios institucionais" merece desconfiança imediata. O custo médio de um serviço raramente coincide com o custo real de tratar este doente ao longo de todo o seu percurso. E "os custos" — quais? Administração, monitorização, gestão de toxicidade, os custos evitados a jusante? Custos em falta, em qualquer direcção, distorcem o ICER. Uma média é um número que é verdadeiro em média e errado para quase toda a gente.
Quem ganha com o sim, e onde vivem os maus cenários
"Apoio do fabricante" não prova fraude — mas a literatura é clara sobre o padrão, e o leitor avisado lê o número com esse filtro. E "análise de sensibilidade em anexo" é onde costumam viver os cenários desfavoráveis: o número da capa é, quase sempre, o cenário-base optimista. O leitor honesto vai ao anexo primeiro, não por último — porque é lá que se descobre quão frágil é o número que decora o resumo.
Cada frase do parecer esconde um truque diferente. Passe as cinco lentes e veja o documento revelar-se.
Nenhuma das duas colunas contém uma única mentira. Cada escolha, isoladamente, defende-se. E, no entanto, produzem dois mundos diferentes a partir dos mesmos dados. A conclusão de uma avaliação económica diz tanto sobre as preferências de quem a desenhou como sobre o fármaco que avalia.
As cinco lentes não pesam todas o mesmo. As duas primeiras são filtros de triagem: se qualquer delas falha, o resto da conta perde sentido. Leia sempre do mais barato de verificar para o mais exigente — e pare logo que encontre um fundamento comprometido.