Capítulo 10 · Estratégia em Saúde

As Cinco Forças — uma ferramenta de mercado, relida com cuidado

Michael Porter, How Competitive Forces Shape Strategy, Harvard Business Review, 1979.

Porter desenhou as cinco forças para mapear a concorrência num mercado. O SNS não é um mercado clássico — mas, traduzidas com rigor, estas forças revelam pressões muito reais sobre o seu serviço. Vire cada cartão para passar da formulação de mercado à tradução no SNS.

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Mercado

Ameaça de novos entrantes

Facilidade com que novos concorrentes entram e disputam a quota dos instalados.

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Novos entrantes

As barreiras de entrada são altas no público — mas há entrantes reais: o sector privado e as convenções a captar actividade rentável e profissionais; outro hospital da ULS requalificado para concentrar uma valência.

Exemplo: uma unidade privada de ortopedia de ambulatório abre na região e capta a casuística simples — e alguns dos melhores cirurgiões.

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Mercado

Poder dos fornecedores

Capacidade dos fornecedores de impor preços e condições — tanto maior quanto mais escassos e insubstituíveis.

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Poder dos fornecedores

Bem real: a indústria farmacêutica e de dispositivos sobre os preços; e, sobretudo, os recursos humanos escassos — médicos e enfermeiros são o fornecedor do factor mais limitado, com poder que cresce quando o sector privado acena.

Exemplo: dependência de um único fornecedor de dispositivo; especialistas escassos que negoceiam condições à saída.

Mercado · centro

Rivalidade no setor

Intensidade com que as organizações existentes competem entre si — preço, inovação, quota.

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Rivalidade no setor

Não há disputa por preço, mas há competição real: por recursos escassos (orçamento, bloco, equipamento), por profissionais, por referenciação e por reputação — e, com o sector privado, por doentes e médicos.

Exemplo: dois serviços de cardiologia a disputar a referenciação de uma valência; um serviço a perder profissionais para uma clínica vizinha.

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Mercado

Poder dos clientes

Capacidade dos compradores de exigir mais por menos — preço, qualidade, condições.

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Poder do pagador (e do doente)

Distinga: o pagador é o Estado (tutela, ACSS, contrato-programa) e o seu poder é enorme — fixa financiamento, metas e preços por GDH. O doente tem pouco poder clássico, mas crescente voz e capacidade de reclamação. Os referenciadores dos cuidados primários são clientes a conquistar.

Exemplo: o contrato-programa que fixa o preço por GDH e as metas de desempenho; o doente que pede segunda opinião.

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Mercado

Ameaça de substitutos

Alternativas que satisfazem a mesma necessidade e podem tornar o produto existente obsoleto.

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Substitutos

Formas alternativas de responder à mesma necessidade: cuidados primários e domiciliários, ambulatório a substituir internamento, telemonitorização, novas terapêuticas — e o sector privado. Aqui o substituto não é inimigo a combater: muitas vezes é a forma certa de cuidar.

Exemplo: telemonitorização da IC a reduzir internamentos; ambulatório a esvaziar enfermarias cirúrgicas.

O aviso que tudo decide. O SNS não é um mercado clássico — aplicar isto à letra («ganhar quota», «destruir o rival») é um disparate, porque o fim do sistema é a saúde da população, não o lucro. Mas, relida com cuidado, esta grelha revela pressões muito reais. A inteligência está na tradução, não na aplicação literal.