O Papel do Médico Gestor

Porque ser excelente no que faz não chega e às vezes até atrapalha.

Há um momento particular na vida de muitos médicos que, visto à distância, se revela decisivo: o dia em que alguém, o Conselho de Administração, a Direção Clínica ou os pares, entende que a sua competência profissional justifica confiar-lhe a direção de um serviço.

Na maioria dos casos, essa escolha é um reconhecimento legítimo do seu valor clínico. Mas é também, com frequência, o início de um desconforto novo. Não necessariamente porque o cargo seja ingrato, embora o possa ser. O desconforto nasce sobretudo da descoberta de que as competências que permitiram ser um bom clínico não chegam, por si só, para dirigir uma unidade de saúde ou um grupo de médicos, ou outros profissionais. Em alguns casos, quando essas capacidades são transferidas sem adaptação para a gestão, podem mesmo tornar-se um obstáculo ou contraproducentes.

Este capítulo parte dessa constatação. O seu objetivo não é discutir ainda instrumentos técnicos, modelos de contratualização, sistemas de avaliação ou regras administrativas. O objetivo é mais básico e mais importante: clarificar o que é ser um médico gestor, em que é que essa função difere da prática clínica e porque exige uma lógica de ação própria.

Ser médico gestor não significa deixar de ser médico. Significa passar a trabalhar em dois planos ao mesmo tempo. Por um lado, continua a existir o plano técnico e profissional, assente no conhecimento clínico, na autonomia técnico-científica e na responsabilidade perante o doente. Por outro, surge o plano organizacional, que implica coordenar pessoas, estruturar processos, gerir prioridades, alocar recursos escassos, negociar com diferentes centros de poder e produzir condições para que o serviço funcione melhor de forma estável e segura.

É nesta articulação entre lógica profissional e lógica organizacional que nasce, verdadeiramente, o papel do médico gestor.

A Diferença entre Excelência Clínica e Competência em Gestão

Durante décadas, e ainda hoje em muitas instituições, persistiu uma ideia implícita: quem é um excelente médico será, por isso mesmo, um bom diretor de serviço. A lógica é intuitiva e até moralmente sedutora. O melhor internista torna-se diretor de internamento; o cirurgião mais competente, diretor do bloco. Parece justa, porque recompensa o mérito técnico. No entanto, contém um erro estrutural: assume que a competência se transfere automaticamente de um domínio para outro. O psicólogo Laurence J. Peter identificou este problema com mordacidade em 1969, no seu célebre Princípio de Peter: as pessoas tendem a ser promovidas até atingirem o seu nível de incompetência.

O problema, porém, não está numa suposta incapacidade pessoal. Está, mais frequentemente, numa falsa equivalência entre tipos de competência diferentes. As aptidões que fazem de alguém um clínico excecional são reais, válidas e admiráveis. Simplesmente, não mapeiam diretamente para as aptidões que fazem de alguém um gestor competente.

Ser um excelente clínico exige capacidades muito específicas: raciocínio diagnóstico, decisão sob pressão, rigor técnico, responsabilidade individual, domínio científico, atenção ao detalhe, compromisso ético e capacidade de intervenção perante problemas concretos. Ser um gestor competente exige, além de algumas dessas capacidades, outras que a prática clínica não treina de forma sistemática: leitura organizacional, coordenação de equipas, gestão de prioridades concorrentes, negociação, pensamento sistémico, comunicação estratégica e tolerância à ambiguidade.

O erro, portanto, não é promover bons médicos. O erro é promovê-los sem preparação para a natureza própria da função.

A atividade clínica e a gestão não são mundos opostos. Partilham exigência, responsabilidade e a necessidade de julgamento. Mas operam com unidades de análise e horizontes de ação diferentes.

A área clínica tende a concentrar-se no doente individual, mesmo quando usa protocolos, vias verdes ou critérios populacionais. A gestão, pelo contrário, tem de pensar simultaneamente em doentes como um todo, equipas, fluxos, recursos, tempos de resposta, qualidade, segurança, acessibilidade e sustentabilidade.

No dia a dia da atividade médica, muitos problemas são definidos a partir de uma pergunta concreta: o que tem este doente, o que o está a agravar, o que devo fazer agora. Na gestão, os problemas surgem frequentemente sob a forma de tensões mal delimitadas: listas de espera que aumentam sem uma causa única, conflito entre profissionais com efeitos em toda a equipa, ineficiência sem um responsável claro, processos que funcionam mal apesar de ninguém estar formalmente em erro.

O médico é treinado para decidir com base em evidência, contexto e responsabilidade pessoal direta. Na gestão, muitas decisões continuam a exigir rigor, mas raramente dependem apenas de um juízo individual. Exigem negociação, alinhamento, adesão dos outros e capacidade de implementação.

Por isso, mais do que opor pensamento clínico e pensamento de gestão, importa distingui-los e saber traduzi-los. O rigor clínico continua a ser útil. A atenção ao detalhe continua a ser útil. O pensamento analítico continua a ser útil. O que muda é o objeto sobre o qual incidem.

Um médico que compreende esta diferença tem uma vantagem imensa: pode usar o pensamento clínico onde ele serve (análise rigorosa, atenção ao detalhe, evidência) e o pensamento de gestão onde esse serve (sistemas, incentivos, cultura, poder).

A formação médica é extraordinária em muitas dimensões: treina o raciocínio hipotético-dedutivo, a atenção ao detalhe, a tolerância à pressão, a responsabilidade individual, entre outros. Mas não tem, nem precisa de ter, como missão principal preparar para a direção de organizações ou unidades funcionais. Por isso, quem assume funções de liderança encontra quase sempre lacunas previsíveis.

A primeira é a tolerância à ambiguidade organizacional. Na clínica, a incerteza existe, mas tende a convergir para um desfecho observável. Na gestão, muitos problemas não se resolvem definitivamente. Mudam de forma, regressam, deslocam-se de um setor para outro, ou melhoram parcialmente sem desaparecerem. Aprender a agir eficazmente mesmo sem certeza é uma competência crítica.

A segunda é a capacidade de atuar através de outros. O médico foi treinado para responder diretamente. O gestor tem de aprender que, muitas vezes, o seu valor não está em executar melhor do que todos, mas em criar condições para que outros executem melhor e de forma mais consistente.

A terceira é o pensamento sistémico. Numa organização de saúde, alterar uma escala, um circuito, um critério de referenciação ou um modelo de reunião pode produzir efeitos inesperados em vários pontos do processo ou da organização. O bom gestor tem de pensar em interdependências, não apenas em tarefas isoladas. O médico gestor que age sobre processos sem pensar em consequências mais amplas e em vários níveis cria frequentemente mais problemas do que resolve.

A quarta é a comunicação como ferramenta de coordenação e influência. Na gestão, comunicar não é apenas transmitir a informação correta. É moldar e facilitar a compreensão partilhada, reduzir a resistência, criar alinhamento e tornar possível a mudança. Comunicar pode ser uma estratégia.

A quinta é a delegação com accountability. Delegar não é abdicar. É distribuir a responsabilidade com critérios claros, acompanhamento proporcional e expectativa explícita de resultados. Este é talvez o mais difícil para os médicos. Quem foi treinado a ser responsável por cada decisão clínica tem muita dificuldade em entregar responsabilidades a outros, e em especial, a aceitar que o resultado seja diferente do que faria pessoalmente.

Isto não significa que o conhecimento clínico seja inútil na gestão, muito pelo contrário. Um diretor de serviço que conhece a fundo a sua especialidade tem uma credibilidade natural junto dos pares que um gestor puro não conseguirá nunca replicar. Sabe reconhecer quando um colega está a fazer bem ou mal, percebe as implicações reais de uma decisão operacional, pode defender a sua área com um argumento técnico sólido perante a administração. Esse capital é precioso. A questão é usá-lo sem ficar prisioneiro dele.

Responsabilidade Formal versus Influência Real

Existe uma ilusão muito comum em quem assume um cargo de gestão pela primeira vez: a de que o organograma descreve fielmente o poder real dentro de uma organização. Que basta ocupar a cadeira de "Diretor de Serviço" para ter autoridade sobre o que acontece nesse serviço. Que o título lhe confere imediatamente o comando e que tudo vai acontecer do modo que idealizou e que deseja.

Não vai ser assim.

Esta ilusão dura, tipicamente, entre três semanas e três meses, geralmente o tempo necessário para que a realidade se imponha. E a realidade é esta: o organograma descreve a estrutura formal da organização, não o funcionamento real do poder dentro dela.

Um diretor de serviço pode ter nomeação formal e, ainda assim, pouca capacidade de produzir mudança se não construir credibilidade, alianças e utilidade percebida. Inversamente, um profissional sem cargo formal pode ter enorme capacidade de travar decisões, condicionar comportamentos ou moldar o clima de equipa.

Isto não significa que a estrutura formal seja irrelevante. Significa apenas que, em organizações de saúde, ela convive com um poder profissional muito distribuído, com culturas instaladas, com lideranças informais e com múltiplos centros de decisão. É por isso que hospitais e unidades de saúde são frequentemente descritos como burocracias profissionais: organizações em que a autoridade hierárquica existe, mas é limitada pela autonomia técnico-científica dos profissionais e pelo peso do conhecimento especializado.

Voltamos a Henry Mintzberg, provavelmente o maior estudioso das organizações do século XX, que passou grande parte da sua vida a documentar a diferença entre o que os gestores deveriam fazer (de acordo com a teoria clássica) e o que realmente fazem. A conclusão é que a gestão eficaz é muito menos racional, planeada e hierárquica do que os manuais sugerem e muito mais relacional, fragmentada e dependente de redes informais de influência.

A nomeação como diretor de serviço confere-lhe um conjunto de prerrogativas formais que importa conhecer com precisão:

O SIADAP é talvez o instrumento mais sensível desta autoridade formal: é o momento em que o diretor emite um julgamento oficial sobre cada colaborador. A forma como é conduzido — com que critérios, com que transparência, com que consistência — tem um impacto profundo na perceção de justiça dentro do serviço.

Mas essa autoridade não é ilimitada, nem substitui a autonomia profissional dos especialistas, nem anula as competências de outras chefias, nem dispensa articulação com a Direção Clínica, o Conselho de Administração, a enfermagem, os serviços de suporte e as estruturas de qualidade e segurança.

Em termos práticos, o diretor de serviço não governa sozinho. Trabalha numa rede de dependências recíprocas.

Se a autoridade formal é o ponto de partida, a influência real é o que determina se vai conseguir mudar alguma coisa. E a influência, ao contrário da autoridade, não se confere nem se ganha porque obteve o primeiro lugar num concurso público. Constrói-se, lentamente, com base em alguns pilares fundamentais:

Por isso, a influência não substitui a autoridade. Completa-a. E, em alguns momentos, pode valer mais do que ela.

O Erro de Gerir como se Faz Medicina

Há uma cena que se repete em hospitais por todo o país e provavelmente por todo o mundo. Um médico excelente, promovido a diretor de serviço, convoca a primeira reunião de equipa. Chegou preparado: tem uma lista de problemas identificados, um conjunto de soluções que lhe parecem evidentes, e, porque é assim que sempre trabalhou, quer resolver tudo de uma vez. Com rigor. Com eficiência. Com a mesma determinação com que abordaria um doente complexo.

Essa abordagem parece virtuosa, porque deriva de bons hábitos clínicos. Mas, na gestão, falha muitas vezes. Um serviço ou unidade não é um doente. É um sistema social e profissional. Tem memória, relações, interesses, hábitos, rotinas, conflitos latentes, hierarquias formais e lideranças informais. Não responde apenas a lógica. Responde também a contexto, identidade, confiança e perceção de justiça.

A formação médica instala por norma certos padrões de resposta que são adaptativos na clínica e desadaptativos na gestão. Conhecê-los não é para os eliminar, mas sim para ajudar a reconhecer quando aparecem e decidir conscientemente se são adequados ao contexto.

Na medicina de urgência, a decisão autónoma e rápida é frequentemente a decisão correta. Não há tempo para consensos e discussões prolongadas. Na gestão de um serviço, a maioria dos problemas importantes é complexa, envolve múltiplos atores e beneficia imensamente de perspetivas diversas. O gestor que resolve tudo sozinho perde informação relevante, aliena os colaboradores que poderiam contribuir, e cria dependência da sua própria presença — o serviço deixa de funcionar quando ele não está.

Há decisões que devem ser tomadas por si. Outras devem ser preparadas em conjunto. Outras devem ser inteiramente delegadas.

A medicina treina o médico para o facto de que um erro de dosagem, uma omissão de sinal, uma distração num momento crítico possam custar uma vida. Este padrão de exigência é absolutamente correto na prática clínica. Transferido para a gestão, torna-se frequentemente paralisante e limitador.

Muitas decisões têm de ser tomadas com informação incompleta, em prazos curtos e com recursos limitados. A perfeição é frequentemente o inimigo do bom. Um plano de 80% implementado vale muito mais do que um plano perfeito que nunca sairá do papel. O gestor que espera ter toda a informação antes de decidir raramente decide, e quando decide, é tarde demais. O objetivo não é a perfeição abstrata. É a melhor decisão possível no contexto concreto, com capacidade real de execução.

O economista Herbert Simon cunhou o conceito de satisficing: a estratégia de procurar uma solução suficientemente boa, e não necessariamente a solução ótima, quando os custos de continuar a procurar excedem os benefícios esperados de encontrar algo melhor. É uma das competências mais importantes e menos desenvolvidas em médicos que chegam a cargos de gestão.

O médico responde pessoalmente pelas suas decisões clínicas. Esta responsabilidade é inegociável e estruturante da ética profissional médica. Na gestão, esta é necessariamente mais partilhada e aceitá-lo exige uma reformulação psicológica significativa.

O diretor de serviço que assume responsabilidade pessoal por absolutamente tudo o que acontece no serviço vai esgotar-se rapidamente. E vai, paradoxalmente, desresponsabilizar os colaboradores, até porque estes percebem que, no final, o chefe vai resolver. A delegação efetiva exige aceitar que os resultados serão às vezes diferentes dos que produziria pessoalmente — e que isso é, dentro de certos limites, aceitável.

Obviamente que obriga a uma preocupação em distribuir responsabilidade com critérios, manter a supervisão adequada e exigir a devida prestação de contas.

Os médicos comunicam, na sua prática habitual, com foco no conteúdo: o diagnóstico, o tratamento, a informação clínica relevante. A comunicação é predominantemente unidirecional: do médico para o doente ou do médico para o colega. O objetivo é a transmissão precisa de informação.

Na gestão, a comunicação tem dimensões que vão muito além do conteúdo. O como se diz, o quando se diz, o para quem se diz, o que não se diz — tudo isto tem impacto na forma como a mensagem é recebida e no comportamento subsequente dos destinatários. Um diretor que diz "este processo não está a funcionar" em reunião de equipa, sem ter preparado o contexto, pode produzir um sentimento imediato de defesa, ressentimento ou resignação, mesmo que o conteúdo da afirmação seja rigorosamente verdadeiro.

Os Limites do Poder do Diretor

Uma das surpresas mais desagradáveis para quem assume pela primeira vez um papel de liderança é perceber que o cargo tem muito menos poder discricionário do que aparenta. Não é uma limitação portuguesa, é uma característica estrutural das organizações de saúde em todo o mundo, que Mintzberg descreveu de forma lapidar ao identificar os hospitais como burocracias profissionais: organizações onde o poder real está distribuído pelos profissionais que detêm conhecimento técnico especializado, e não concentrado numa hierarquia formal de gestão.

Num hospital, os médicos especialistas têm autonomia clínica garantida por lei e por normas deontológicas. Os enfermeiros têm a sua própria hierarquia e ordens profissionais. Os assistentes técnicos e operacionais têm regras laborais que limitam a flexibilidade da sua utilização. O Conselho de Administração define os limites financeiros e estratégicos. A Direção Clínica tem supervisão sobre questões clínicas transversais. A Tutela define os parâmetros do contrato-programa. A ACSS e a DGS emitem normas e circulares que se sobrepõem a decisões locais.

Neste contexto, o diretor de serviço ocupa uma posição central, mas não soberana. Em muitas matérias depende de validação superior, articulação multiprofissional ou enquadramento normativo. Isto não diminui a função. Define-a com realismo.

Para navegar eficazmente esta realidade, é útil ter uma representação clara de onde ficam as fronteiras do poder decisório. O esquema seguinte não é universal — varia com a dimensão do hospital ou unidade, com o enquadramento jurídico da ULS ou USF, e com a cultura institucional específica. Mas constitui uma base de referência útil para a maioria dos contextos do SNS.

Esta distribuição de poderes pode parecer frustrante para quem chega de fora e é legítimo que o seja. Mas há uma leitura mais construtiva: o facto de não poder decidir sozinho em muitas matérias significa que, nessas matérias, a sua responsabilidade é influenciar bem — construir um argumento convincente, apresentar dados sólidos, antecipar objeções, criar coligações de apoio. É, por isso, uma escola permanente de negociação e comunicação estratégica.

Importa aqui ser rigoroso. Os médicos especialistas dispõem de autonomia técnico-científica, e essa autonomia é uma característica essencial das profissões médicas. No entanto, ela não significa liberdade organizacional irrestrita. A prática clínica exerce-se dentro de deveres institucionais, normas de boa prática, requisitos de segurança, circuitos estabelecidos, regras de qualidade, responsabilidade documental e obrigações de articulação assistencial.

Por isso, o diretor de serviço não pode, em regra, substituir-se ao juízo clínico individual de cada médico nos casos concretos. Mas pode e deve promover enquadramentos organizacionais, padrões assistenciais, processos seguros, auditoria interna, discussão técnica, revisão de práticas e melhoria contínua. O seu papel não é mandar clinicamente em tudo. É criar um ambiente organizacional em que a boa prática seja mais provável, mais consistente e mais sustentável.

Há um risco simétrico ao de achar que tem poder ilimitado: a resignação passiva face aos constrangimentos da burocracia e de todos os aspetos negativos de se liderar uma organização complexa. Mais do que uma atitude, é uma armadilha cognitiva — e uma das mais difíceis de reconhecer em si próprio.

A investigação em liderança organizacional, designadamente o trabalho de Amy Edmondson (Harvard Business School) sobre teaming, segurança psicológica e liderança em contextos de alta complexidade, demonstrou que os líderes eficazes em organizações complexas não são os que esperam as condições perfeitas para agir. São os que identificam os espaços de manobra reais — por vezes escondidos dentro dos constrangimentos existentes — e os exploram com criatividade e persistência.

Há quase sempre mais margem do que parece à primeira vista. Mas encontrá-la exige um diagnóstico rigoroso, ter o "estômago necessário" para ter conversas difíceis e a disposição para experimentar soluções diferentes para os problemas de sempre. Exige, em suma, exatamente o tipo de pensamento analítico e sistemático que a formação médica já nos treinou — mas aplicado a um domínio diferente.

O diretor de serviço tem autonomia funcional relevante na gestão do serviço. Mas essa autonomia coexiste com competências de supervisão, coordenação e orientação da Direção Clínica, nos termos do modelo organizativo e dos regulamentos em vigor.

Isto significa que a relação não deve ser lida como obediência cega, mas também não pode ser descrita como uma separação estanque ou uma independência total. O diretor clínico não substitui o diretor de serviço na gestão quotidiana da unidade. Porém, tem legitimidade para definir orientações institucionais, acompanhar indicadores, intervir em matérias transversais, arbitrar conflitos relevantes e enquadrar decisões com impacto para além do serviço.

A maturidade gestionária mede-se, em parte, pela capacidade de habitar bem este espaço intermédio: nem submissão acrítica, nem fantasia de independência absoluta.