Estratégia em Saúde
Da diferença entre plano e estratégia ao triângulo de Moore, passando por PESTEL, SWOT, posicionamento e priorização — o essencial para fazer escolhas difíceis e sustentadas num serviço do SNS.
A essência da estratégia é escolher o que não fazer.
Introdução
A Dra. Helena dirige há oito anos um Serviço de Cardiologia num hospital de média dimensão, à sombra de dois centros universitários a menos de uma hora de distância. Quando revê os primeiros anos à frente do serviço, não encontra uma estratégia errada — encontra a ausência de qualquer estratégia. O serviço foi crescendo à medida que as pressões chegavam: um equipamento novo aqui, uma consulta externa ali, um protocolo de colaboração acolá. Ninguém tinha decidido, de forma explícita, o que o serviço queria ser. «Éramos muito bons a responder ao que aparecia. Mas nunca tínhamos perguntado a nós próprios para onde queríamos ir. A diferença entre os dois é maior do que parece», diz a Dra. Helena.
A experiência da Dra. Helena não é exclusiva do SNS hospitalar. Um coordenador de USF cujo leque de serviços foi crescendo por pressão das inscrições, ou um director clínico de uma clínica privada que foi aceitando valências à medida que surgiam oportunidades — e não porque decidiu uma direcção — reconhecerão o mesmo padrão. Os princípios deste capítulo aplicam-se a qualquer contexto; o SNS hospitalar é o contexto principal de referência — o ambiente com menos margem de manobra, o que torna as escolhas — e os seus custos — mais visíveis. O capítulo percorre o que é estratégia e o que não é, como se analisa o terreno em que se joga, como se escolhe um posicionamento, como se prioriza e como se evitam as armadilhas mais frequentes.
O que é — e o que não é — estratégia
Poucas palavras são tão usadas e tão pouco compreendidas na gestão da saúde como «estratégia». Quase todos os serviços têm um «plano estratégico»; quase nenhum tem uma estratégia. A diferença não é semântica. Um plano é uma lista de coisas que se gostaria de fazer; uma estratégia é uma teoria fundamentada sobre como criar valor de forma sustentada, assente em escolhas difíceis e renúncias explícitas.
Vale a pena situar a estratégia na hierarquia do propósito organizacional, porque a confusão entre níveis é a fonte mais comum de pseudo-estratégia. A missão responde a «para que existimos?» — é o propósito fundamental, relativamente estável ao longo do tempo. A visão responde a «onde queremos chegar?» — é o horizonte aspirado num futuro concreto. A estratégia responde a «como chegamos lá, dado o terreno que temos pela frente?» — é o caminho escolhido, com as renúncias que esse caminho implica. O plano operacional responde depois a «o que fazemos exactamente, quando e com que recursos?». Muitos «planos estratégicos» do SNS descrevem a missão com eloquência, pintam uma visão inspiradora, listam dezenas de iniciativas — e nunca escolhem nada. São documentos de intenção, não estratégias.
Michael Porter, já nosso conhecido dos capítulos 5 e 9, escreveu o texto talvez mais citado sobre o tema — What is Strategy? (Harvard Business Review, 1996) — e a sua tese central é desconfortável: a essência da estratégia é escolher o que não fazer. Uma organização que tenta ser tudo para todos não tem estratégia — tem aspirações. Porter distingue ainda, de forma crucial, eficácia operacional de estratégia: fazer as mesmas coisas melhor do que os outros não é estratégia, porque é imitável e leva todos a convergir para o mesmo ponto — aquilo a que ele chama competição destrutiva por imitação. Estratégia é fazer coisas diferentes, ou as mesmas de forma deliberadamente diferente, de um modo difícil de copiar.
Definições
- eficácia operacional
- Conceito de Porter que designa a capacidade de executar as mesmas actividades que os concorrentes, mas de forma mais eficiente — com menos erros, menos tempo, menos custo. É necessária mas não suficiente para uma estratégia: quando todos melhoram a eficácia operacional em simultâneo, os resultados tendem a igualar-se e nenhum obtém vantagem duradoura. Porter designa este fenómeno de «competição destrutiva por imitação» — todos seguem as melhores práticas, os custos reduzem-se, mas a diferenciação desaparece.
Henry Mintzberg — também ele recorrente neste manual — acrescenta uma nuance que protege o gestor da arrogância do planeamento: a estratégia real de uma organização raramente é a que está escrita no documento. Há a estratégia pretendida (a que se planeia deliberadamente), a estratégia emergente (a que de facto surge, fruto de mil decisões do dia a dia e de adaptações não planeadas) e a estratégia realizada, que é sempre uma mistura das duas. Isto tem uma consequência prática: quem trata o plano como a única verdade acaba por vê-lo desfeito pelo dia a dia; quem entende que o plano é apenas ponto de partida fica atento ao que realmente acontece no serviço, corrige quando é preciso e aprende no caminho. Uma estratégia que funciona é, por isso, metade intenção e metade adaptação.
Definições
- estratégia emergente
- Conceito de Henry Mintzberg (The Rise and Fall of Strategic Planning, 1994) que designa a estratégia que se forma não pelo planeamento deliberado mas pelo padrão que emerge das decisões do dia a dia — adaptações, improvisações e respostas ao imprevisto que, com o tempo, definem a direcção real de uma organização. Mintzberg argumenta que as organizações mais adaptativas equilibram a estratégia deliberada (com direcção e intenção) com a emergente (aberta à aprendizagem), evitando quer a rigidez do planeamento excessivo quer a deriva do improviso permanente.
Vale a pena ainda distinguir três níveis de estratégia, porque o médico gestor opera sobretudo no terceiro e confunde-o frequentemente com o primeiro. A estratégia corporativa decide em que «negócios» a organização actua — ao nível de uma ULS ou de um centro hospitalar, que linhas de serviço manter, expandir ou encerrar. A estratégia competitiva (ou de unidade) decide como cada serviço se distingue e se posiciona. A estratégia funcional alinha as operações — recursos humanos, processos, tecnologia — com as duas anteriores. Um director de serviço tem mandato pleno sobre a funcional, influencia a competitiva, e apenas participa na corporativa. Saber em que nível se está a jogar evita tanto a impotência (querer decidir o que não se decide) como a abdicação (não decidir o que se podia).
Estratégia em contexto público: as regras são outras
Percebemos o que é estratégia e o que a distingue de um plano ou de uma declaração de visão. Agora precisamos de perceber como ela muda quando o contexto é público — porque as regras do jogo não são as mesmas. Há uma armadilha em importar, sem filtro, a estratégia empresarial para o SNS. Na empresa, a estratégia orienta-se para a vantagem competitiva e, em última análise, para o lucro. Um serviço público não compete por clientes da mesma forma, não escolhe livremente o que produz, não pode «abandonar segmentos não rentáveis», e o seu sucesso não se mede em quota de mercado. Aplicar Porter à risca a um serviço do SNS gera absurdos — e, pior, alimenta a convicção de que a estratégia «não se aplica aqui», desculpa preferida de quem não quer escolher.
O quadro mais útil para o sector público é o de Mark Moore, de Harvard, com o conceito de valor público (Creating Public Value, 1995). Moore propõe que um gestor público deve alinhar simultaneamente três coisas — o chamado triângulo estratégico: o valor público que pretende criar (que resultados para que população), a legitimidade e o apoio do ambiente autorizador (administração, tutela, profissionais, comunidade, doentes) e a capacidade operacional para o entregar (recursos, competências, processos). Uma estratégia pública só é viável quando os três vértices se sustentam mutuamente. Uma ideia de enorme valor público sem apoio autorizador morre na gaveta; com apoio mas sem capacidade, frustra e desacredita; com capacidade e apoio mas sem valor real, desperdiça recursos a fazer bem aquilo que não precisava de ser feito.
Definições
- valor público
- Conceito de Mark Moore (Harvard Kennedy School) que designa o benefício criado por uma organização pública para a sociedade — distinto do valor privado (que serve o accionista) e do valor do cliente (que serve o utilizador individual). O valor público incorpora dimensões de equidade, acesso, confiança e legitimidade democrática que não se reduzem a eficiência ou satisfação do doente. Moore argumenta que o gestor público tem de o definir explicitamente, porque ao contrário do gestor privado não tem o sinal de preço como indicador de valor criado.
- triângulo estratégico
- Framework de Mark Moore (Creating Public Value, 1995) que propõe que uma estratégia pública viável requer o alinhamento simultâneo de três vértices: (1) o valor público que se pretende criar; (2) a legitimidade e o apoio do «ambiente autorizador» — o conjunto de actores com poder de aprovar, financiar ou bloquear a iniciativa; e (3) a capacidade operacional para a entregar. A ausência de qualquer um dos três invalida a estratégia: sem valor, é desperdício; sem legitimidade, é impotência; sem capacidade, é frustração.
Há ainda uma diferença de horizonte que o gestor público deve interiorizar. Na empresa, o ciclo estratégico responde ao mercado e ao accionista; no SNS, responde também a ciclos políticos, a mudanças de tutela e a prioridades nacionais que mudam sem aviso. Num serviço hospitalar, faz sentido pensar a estratégia a três a cinco anos — tempo suficiente para produzir resultados observáveis, mas sem a ilusão de que qualquer cenário a dez anos é controlável no contexto do SNS.
Isto não é argumento para o curto-prazismo — é argumento para construir estratégias robustas. Uma estratégia é robusta quando assenta em valor real para a população (e não em prioridades contingentes de uma tutela), quando o compromisso está distribuído pelos profissionais e não concentrado num único líder, e quando os resultados são visíveis e mensuráveis — tornando-a difícil de abandonar por qualquer administração sem custo político. A estratégia que depende de uma pessoa morre com a saída dessa pessoa; a que produz resultados que a população e os profissionais reconhecem sobrevive-lhe.
Compreender o meio envolvente: PESTEL e as forças do sector
Nenhuma estratégia se desenha no vácuo. Antes de olhar para dentro, o gestor estratégico olha para fora — e fá-lo de forma estruturada, não por impressões. Duas ferramentas clássicas ajudam a organizar esse olhar, e ambas se adaptam bem ao contexto da saúde.
Análise PESTEL do macroambiente
A PESTEL é uma ferramenta de análise do macroambiente: serve para mapear, de forma estruturada, as forças externas que o gestor não controla mas que definem o espaço de manobra estratégico. O resultado prático é uma lista das tendências mais relevantes para o serviço nos próximos anos — o ponto de partida obrigatório antes de qualquer análise interna. O acrónimo organiza essas forças em seis dimensões que, aplicadas à saúde portuguesa, ganham contornos muito concretos:
Definições
- PESTEL
- Acrónimo que organiza a análise do macroambiente externo em seis categorias: Político, Económico, Social, Tecnológico, Ambiental (Environmental) e Legal. Desenvolvida a partir da análise PEST original (anos 1960-70), com as dimensões ambiental e legal acrescentadas à medida que ganharam relevância para a estratégia organizacional. Em saúde, é particularmente útil porque o sector está sujeito a regulação intensa (L), a financiamento público dependente de ciclos políticos (P) e a transformações tecnológicas rápidas (T) — três factores que raramente mudam ao mesmo ritmo.
- Político. Ciclos eleitorais, prioridades da tutela, modelo de governação do SNS, criação e consolidação das ULS — abordada no Capítulo 2.
- Económico. Restrições orçamentais, modelos de financiamento, custo de oportunidade ao nível macro — toda a lógica do Capítulo 9 vive aqui.
- Social. Envelhecimento, multimorbilidade, literacia em saúde, expectativas crescentes dos doentes, padrões migratórios que mudam a área de influência.
- Tecnológico. Telemedicina, inteligência artificial diagnóstica, novos fármacos e dispositivos, digitalização do registo clínico.
- Ambiental. Sustentabilidade e pegada ecológica dos cuidados, resiliência a eventos climáticos extremos, gestão de resíduos — uma dimensão crescentemente exigida.
- Legal. Regime jurídico das ULS, legislação laboral médica, responsabilidade civil.
A PESTEL e as cinco forças analisam o exterior em dois níveis distintos. A PESTEL olha para o macroambiente — as forças que afectam todos os sectores e todas as organizações, independentemente do que fazem: demografia, economia, legislação, clima. As cinco forças olham para o sector específico — as dinâmicas que afectam directamente os actores de saúde: quem compete, quem fornece, quem substitui, quem pode entrar. Usadas em conjunto, uma responde a «que mundo é este?» e a outra a «como funciona este sector específico?». A análise interna que vem a seguir — a SWOT — só ganha profundidade quando tem as duas como pano de fundo.
As cinco forças, traduzidas para o sector público
O modelo das cinco forças de Porter (1979) foi desenhado para avaliar a atractividade de um sector de mercado. No SNS não se aplica literalmente — mas, relido com cuidado, ilumina dinâmicas reais. Em vez de «rivalidade competitiva», pense-se na dinâmica entre serviços e instituições que disputam os mesmos doentes, profissionais e orçamento dentro da rede. Em vez de «poder dos fornecedores», pense-se na dependência face à indústria farmacêutica e de dispositivos, e face a recursos humanos escassos cuja mobilidade para o privado é real. Em vez de «poder dos clientes», pense-se na crescente capacidade de escolha e voz dos doentes, e na referenciação que os cuidados primários controlam. Em vez de «novos entrantes», pense-se na abertura de unidades privadas ou de PPP na área de influência. E os «produtos substitutos» são, em saúde, percursos alternativos: ambulatório em vez de internamento, primários em vez de hospital, gestão doméstica em vez de institucional.
O exercício ganha clareza quando aplicado ao serviço da Dra. Helena. Lida força a força, a análise revela pressões que o dia a dia tende a esconder — e aponta para onde há terreno por ocupar.
- Rivalidade. É assimétrica — mas não é simples. Dois centros universitários a menos de uma hora concentram os casos de intervenção complexa. No SNS, porém, esses centros não funcionam no vácuo: dependem da rede regional para seleccionar, preparar e referenciar adequadamente os doentes que recebem. Precisam que os hospitais à volta façam bem o primeiro nível — o que lhes garante o fluxo qualificado de casos. Isto tem uma consequência prática: há pressão real, por parte dos centros académicos, para que os hospitais regionais não avancem para áreas de intervenção diferenciada, porque isso reduziria o volume que os centros precisam de justificar a sua própria capacidade instalada. A rivalidade não se joga pela captação directa de doentes — joga-se pela definição do papel de cada hospital na rede de referenciação.
- Poder dos fornecedores. Manifesta-se em duas frentes. Primeiro, nos fármacos: os novos agentes para insuficiência cardíaca têm impacto orçamental real e a negociação está fora do alcance do serviço. Segundo, e mais crítico, nos recursos humanos: cardiologistas com formação diferenciada são escassos e a sua mobilidade para o sector privado é uma constante, não uma ameaça hipotética.
- Poder dos doentes e referenciadores. Cresce em dois sentidos. O doente informado pesquisa alternativas e pondera a transferência para um centro de referência. E os cuidados primários — dentro da ULS — deixaram de ser simples referenciadores externos e passam a ter voz activa na definição dos circuitos do doente. A referenciação é agora uma relação interna que se gere, não uma corrente de encaminhamento automático.
- Novos entrantes. As unidades privadas expandem-se para fora das grandes cidades. Clínicas de cardiologia ambulatória captam seguimentos de doentes estáveis sem a estrutura de custos hospitalar — e com horários e acessibilidade que o hospital público dificilmente iguala para este perfil de doente.
- Substitutos. São talvez a força mais relevante para a decisão estratégica da Dra. Helena. A telemonitorização, a consulta de insuficiência cardíaca nos cuidados primários e a hospitalização domiciliária estão a deslocar para fora do hospital episódios que antes exigiam internamento. O modelo tradicional de gestão da doença crónica centrado no hospital está sob pressão — e essa pressão não vai reverter.
Lida em conjunto, a análise apontava para a mesma conclusão da PESTEL: em intervenção, o serviço estava condenado a perder. Em insuficiência cardíaca crónica integrada com os cuidados primários, havia terreno por ocupar — e a pressão dos substitutos, bem lida, tornava-se o argumento mais forte para construir justamente esse modelo. O que parecia uma ameaça era, afinal, a oportunidade. Foi este cruzamento que a SWOT viria a confirmar.
Análise SWOT aplicada a serviços
A SWOT — forças, fraquezas, oportunidades e ameaças — é a ferramenta de análise estratégica mais conhecida e, por isso mesmo, a mais maltratada. Feita mal, é um exercício de auto-elogio: quatro caixas preenchidas em meia hora numa reunião, cheias de generalidades que ninguém volta a ler. Feita bem — e alimentada pela análise externa da secção anterior — é um instrumento de honestidade brutal. A diferença está no rigor.
Definições
- SWOT
- Acrónimo de Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats — em português, Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças. Atribuída a Albert Humphrey e ao trabalho desenvolvido na Stanford Research Institute nos anos 1960-70, embora a autoria exacta seja disputada. É a ferramenta de diagnóstico estratégico mais difundida — o que contribui tanto para a sua utilidade (linguagem comum, facilidade de comunicação) como para o seu abuso (listas vazias sem análise cruzada).
Como fazer uma SWOT que sirva para alguma coisa
- Forças e fraquezas são internas — mas só ganham sentido quando comparadas com algo. Esse algo, no SNS, não é apenas «o que os serviços vizinhos fazem», mas também o que a população realmente precisa e o que a rede ainda não consegue oferecer de forma consistente. «Temos bons profissionais» pode ser uma força real — se essa competência responde a uma necessidade não coberta na área, é reconhecível nos resultados e é suficientemente estável para sustentar uma direcção estratégica. É uma generalidade vaga se não se traduz em nenhum resultado distinto e nenhum doente ou referenciador a reconhece como tal.
- Oportunidades e ameaças são externas e fora do nosso controlo. Vêm directamente da PESTEL e das cinco forças: mudanças demográficas, nova legislação, criação de uma ULS, abertura de um serviço concorrente, evolução tecnológica. O erro comum é classificar como «ameaça» aquilo que é uma fraqueza interna disfarçada — e vice-versa.
- Ser específico e baseado em dados. «Envelhecimento da população» é inútil; «crescimento previsto de 30% na população com mais de 75 anos da nossa área de influência até 2035» é accionável. Em Portugal, os dados estão acessíveis: projecções demográficas do INE por NUTS, relatórios de actividade do SNS e bases GDH da ACSS, dados de morbilidade dos registos de saúde, e os próprios relatórios de actividade da ULS. A especificidade não é um luxo — é o que separa uma fraqueza real de uma impressão.
Definições
- NUTS
- Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos — sistema hierárquico de divisão do território da União Europeia criado pelo Eurostat para padronizar a recolha e comparação de dados estatísticos regionais. Em Portugal, organiza-se em três níveis: NUTS I (Continente, Açores, Madeira), NUTS II (sete regiões, como Norte, Centro ou Alentejo) e NUTS III (25 comunidades intermunicipais). As projecções demográficas do INE são publicadas ao nível NUTS III, o que permite estimar a evolução da população na área de influência de um serviço com uma granularidade suficiente para o planeamento estratégico.
- Limitar e revisitar. Mais de cinco a seis itens por quadrante tornam a SWOT incontrolável — e revelam falta de priorização, não riqueza analítica. Forçar uma lista curta obriga a escolher o que é realmente relevante. E a SWOT não é uma fotografia para a prateleira: feita de três em três anos, ou sempre que aconteça uma mudança significativa no ambiente — nova ULS, mudança de tutela, crise orçamental —, mantém-se um instrumento vivo. Guardada na gaveta, envelhece e desacredita a ferramenta.
- Cruzar os quadrantes — a SWOT cruzada ou TOWS. O valor da SWOT não está nas listas — está nos cruzamentos. Forças × oportunidades geram estratégias ofensivas (onde atacar). Fraquezas × ameaças geram estratégias defensivas (o que proteger). Forças × ameaças e fraquezas × oportunidades geram movimentos de ajuste. É daí que saem opções concretas, não de contemplar as quatro listas.
Definições
- TOWS
- Inversão analítica da SWOT proposta por Heinz Weihrich (1982) que coloca a ênfase na análise cruzada dos quadrantes em vez de os listar isoladamente. O acrónimo reflecte a sequência de análise: Threats e Opportunities como ponto de partida externo, depois cruzados com Weaknesses e Strengths para gerar opções estratégicas concretas. A TOWS é operacionalmente mais útil do que a SWOT simples porque obriga a formular acções a partir dos cruzamentos, em vez de se ficar pela inventariação.
A Dra. Helena conduziu uma SWOT honesta do seu serviço de Cardiologia, depois de uma PESTEL que lhe revelou duas tendências incontornáveis: o envelhecimento acelerado da sua área e a pressão nacional para reduzir reinternações. A tentação inicial foi listar como força a «cardiologia de intervenção» — mas, ao confrontá-la com os dois centros vizinhos, percebeu que aí seria sempre a terceira escolha. A verdadeira força, escondida à vista de todos, era outra: uma equipa de insuficiência cardíaca estável, com baixíssima rotatividade e uma articulação única com os cuidados primários da região. O cruzamento força × oportunidade era óbvio assim que ninguém fingia. Em vez de competir em intervenção (onde perderia sempre), o serviço apostou em tornar-se referência regional em insuficiência cardíaca crónica. Três anos depois, nenhum doente da área com ICC precisava de ser encaminhado para um centro maior — o serviço conseguia gerir a sua complexidade de forma autónoma. E alguns doentes de fora da área de residência começavam a pedir segunda opinião precisamente ali.
O output da SWOT não é um fim em si mesmo — é o input para a decisão que realmente importa: o posicionamento. As opções geradas pelos cruzamentos TOWS apontam direcções possíveis; a secção seguinte discute como escolher entre elas e o que essa escolha significa na prática para um serviço do SNS.
Posicionamento e opções de crescimento
O caso da Dra. Helena ilustra o conceito estratégico mais importante para um serviço do SNS, e o menos praticado: posicionamento. Não se pode ser excelente em tudo — os recursos são finitos, como o Capítulo 9 deixou claro, e dispersá-los por todas as frentes garante mediocridade em todas. Posicionar é escolher uma ou duas áreas onde o serviço vai ser genuinamente bom, e aceitar ser apenas competente — não excelente — nas restantes, articulando-se com a rede para o que não faz.
Esta escolha é emocionalmente difícil, porque equivale a admitir que não se vai ser o melhor em alguma coisa que se gosta de fazer. Mas é precisamente aqui que reside a disciplina estratégica. Porter descreveu três estratégias genéricas — liderança em custo, diferenciação e foco. No sector público, a liderança em custo puro raramente faz sentido como bandeira (embora a eficiência, vista no Capítulo 9, seja sempre obrigatória), mas a diferenciação (ser reconhecidamente melhor em algo) e o foco (concentrar-se num segmento ou patologia específica) traduzem-se directamente. A Dra. Helena escolheu, sem usar o jargão, uma estratégia de foco com diferenciação.
| Estratégia | Lógica | Aplicação no SNS | Risco principal |
|---|---|---|---|
| Liderança em custo | Produzir ao menor custo do sector | Eficiência máxima na actividade-base; relevante como instrumento, raramente como identidade estratégica num serviço público | Redução de custos sem distinção clínica — corrida ao fundo onde ninguém ganha |
| Diferenciação | Ser reconhecidamente melhor em atributos valorizados | Excelência clínica numa área específica; acesso, qualidade ou continuidade superiores aos da rede | Custo da diferenciação sem financiamento adequado; ser imitado antes de consolidar a vantagem |
| Foco | Concentrar numa fatia do «mercado» — população, patologia ou percurso | Especialização numa condição crónica, faixa etária ou percurso clínico que nenhum outro serve bem | Nicho demasiado estreito para justificar os recursos; vulnerabilidade a mudanças de referenciação ou de política |
A matriz de Ansoff: como crescer sem se perder
Quando um serviço pondera expandir-se, a matriz de Igor Ansoff (1957) oferece quatro caminhos de crescimento, por ordem crescente de risco.
Definições
- matriz de Ansoff
- Framework de Igor Ansoff (Corporate Strategy, 1957) que organiza as opções de crescimento de uma organização em função de dois eixos: se a actividade é existente ou nova, e se a população/mercado alvo é existente ou nova. Os quatro quadrantes resultantes — penetração, desenvolvimento de mercado, desenvolvimento de produto/serviço e diversificação — estão ordenados por risco crescente. A sua utilidade para um director de serviço está em tornar explícito onde está o risco de cada opção de expansão antes de a decidir.
- Penetração. Fazer mais do mesmo para a mesma população — aumentar volume na actividade actual. Menor risco; limitado pelo tecto de procura e capacidade instalada.
- Desenvolvimento de «mercado». Levar a actividade actual a novas populações — alargar a área de referência, atrair novos referenciadores. Risco moderado; exige trabalho de legitimidade junto dos novos parceiros.
- Desenvolvimento de «serviço». Oferecer nova actividade à população actual — criar uma consulta ou técnica nova. Risco moderado a elevado; exige competências que podem não existir internamente.
- Diversificação. Actividade nova para população nova — o quadrante mais arriscado, onde mais serviços se queimam por morder mais do que conseguem mastigar.
A cadeia de valor do serviço
Para saber onde se é — ou se pode ser — distintivo, ajuda decompor o serviço na sua cadeia de valor (Porter, 1985): a sequência de actividades que, em conjunto, produzem o resultado para o doente. No Capítulo 8 vimos esta lógica do lado do processo e do desperdício — onde está o tempo sem valor, onde se perde o doente entre passos. Do lado estratégico, a pergunta é outra: em que elo desta cadeia conseguimos criar valor que os outros não criam? Não é a mesma questão. Gerir processos é eliminar o que não deve existir; posicionar é escolher onde ser genuinamente melhor.
Definições
- cadeia de valor
- Conceito de Michael Porter (Competitive Advantage, 1985) que descreve a sequência de actividades que uma organização realiza para criar valor para o cliente ou doente, desde os inputs até ao resultado final. Porter distingue actividades primárias (que contribuem directamente para o produto ou serviço — em saúde: referenciação, diagnóstico, tratamento, seguimento) e actividades de suporte (que as sustentam — em saúde: recursos humanos, tecnologia, infraestrutura, aprovisionamento). A análise da cadeia de valor permite identificar onde uma organização é distintiva e onde apenas cumpre o mínimo — a base para decisões de posicionamento.
No caso da Dra. Helena, a análise revelou o que a intuição não dizia com clareza: a vantagem não estava na consulta médica em si — outros cardiologistas a fazem com igual competência — nem na optimização terapêutica, que os protocolos tendem a padronizar. Estava no seguimento estruturado com telemonitorização, que permitia detectar descompensação em 48 horas em vez de esperar pela urgência, e na articulação com os cuidados primários da ULS, que transformou o médico de família num parceiro com plano e canal de comunicação directa. Esses dois elos eram difíceis de copiar: exigiam anos de confiança construída dentro da ULS, uma enfermagem formada especificamente e protocolos negociados entre níveis de cuidados. Foi precisamente aí que o posicionamento se ancorou.
O que torna a vantagem da Dra. Helena difícil de imitar não é nenhum dos elos por si só — outros serviços têm telemonitorização, outros têm enfermeiras de IC formadas, outros têm boa relação com os médicos de família. O que é difícil de copiar é a coerência do conjunto: cada elo reforça os outros. A telemonitorização só gera valor porque existe uma enfermeira com protocolo e autoridade para agir sobre os alertas; esse protocolo só existe porque a cultura de articulação com os primários lhe dá continuidade; essa cultura só é possível porque a ULS integra os dois níveis na mesma organização. Porter chamou a este efeito «fit» — a coerência entre actividades que se sustentam mutuamente. É o «fit», não cada actividade isolada, que determina se a vantagem sobrevive quando o contexto muda ou quando alguém tenta replicar um elo da cadeia.
Definições
- fit
- Conceito de Michael Porter («What is Strategy?», HBR, 1996) que descreve o reforço mútuo entre as actividades da cadeia de valor. Uma actividade isolada é relativamente fácil de copiar; um sistema de actividades que se sustentam entre si é muito mais difícil. Porter distingue três níveis de fit: consistência simples (cada actividade é coerente com a estratégia global), reforço mútuo (as actividades amplificam-se entre si) e optimização de esforço (a coordenação elimina redundância e duplicação). O segundo e terceiro níveis — onde cada elo torna os outros mais eficazes — são os que garantem durabilidade real à vantagem.
E se não houver onde posicionar? A lógica do oceano azul
As estratégias genéricas de Porter e a matriz de Ansoff partem de um pressuposto implícito: há um espaço competitivo definido — e a questão é como ocupar melhor a posição dentro dele. W. Chan Kim e Renée Mauborgne, em Blue Ocean Strategy (2005), questionaram exactamente esse pressuposto. A sua tese é que as organizações mais bem-sucedidas não escolhem entre diferenciação e custo dentro do espaço existente — criam um espaço de actuação novo, onde a concorrência é irrelevante porque simplesmente não existe. Chamaram a isso um «oceano azul», por oposição ao «oceano vermelho» do sector saturado onde toda a gente luta pelo mesmo território.
Definições
- Blue Ocean Strategy
- Abordagem estratégica proposta por W. Chan Kim e Renée Mauborgne (Blue Ocean Strategy, 2005; edição expandida 2015) que distingue entre estratégias de oceano vermelho — competir por posição num espaço delimitado e progressivamente mais saturado — e estratégias de oceano azul — criar um novo espaço de actuação onde a concorrência é irrelevante porque ainda não existe. A ferramenta central é a Curva de Valor: uma representação gráfica dos atributos valorizados no sector e do grau em que cada actor os oferece, que torna visível o espaço onde ninguém actua. A criação de oceano azul baseia-se em quatro movimentos — Eliminar, Reduzir, Aumentar, Criar (ERRC) — que permitem desconstruir os atributos existentes e construir uma nova proposta de valor.
Em saúde pública, a lógica do oceano azul é particularmente relevante porque os percursos e populações sistematicamente sub-servidas são exactamente o espaço onde a concorrência não existe — não porque ninguém os queira, mas porque ninguém os organizou. Um serviço que cria a primeira consulta multidisciplinar de doenças raras numa região, ou um programa estruturado de transição de cuidados para jovens adultos com doenças crónicas de início pediátrico, não está a retirar território a ninguém — está a responder a uma procura que existia mas não tinha resposta organizada. A diferença crítica em relação ao sector privado é que muitos «oceanos azuis» em saúde pública correspondem a necessidades pouco rentáveis — que o privado não entra precisamente porque o retorno financeiro é limitado, mas que são exactamente onde o SNS tem razão de ser e financiamento estrutural para actuar.
Identificados os elos distintivos e compreendida a coerência que os une, a questão seguinte é inevitável: por onde começar? A análise da cadeia diz onde somos diferentes — mas não resolve a prioridade entre as iniciativas concretas que fortalecem ou expandem essa diferença. É essa passagem — da direcção às escolhas executáveis — que a secção seguinte aborda.
Definição de prioridades estratégicas
Traduzida a análise em direcção, falta a parte mais difícil: priorizar. Uma estratégia que define dez prioridades não define nenhuma — porque, quando tudo é prioritário, a escolha do que fazer primeiro volta a ser feita pelo acaso ou pela urgência, exactamente o que a estratégia deveria evitar (o paralelo com a triagem de problemas dos primeiros 90 dias, no Capítulo 4, é directo).
Critérios para priorizar iniciativas
Uma forma prática e defensável de ordenar iniciativas estratégicas combina três dimensões:
- Impacto. Quanto valor — clínico, populacional, de sustentabilidade — gera esta iniciativa se for bem-sucedida?
- Exequibilidade. Temos — ou conseguimos obter — capacidade, recursos e apoio para a executar num horizonte razoável? É o vértice da capacidade e da legitimidade de Moore, aplicado iniciativa a iniciativa.
- Alinhamento. Esta iniciativa serve o posicionamento escolhido, ou dispersa-nos de novo por todas as frentes?
As iniciativas de alto impacto, exequíveis e alinhadas são as prioridades reais. As de alto impacto mas baixa exequibilidade exigem trabalho prévio de construção de capacidade ou apoio — não se abandonam, preparam-se. As de baixo impacto consomem energia que faz falta noutro lado, por mais sedutoras que pareçam.
Dos objectivos à execução: onde as estratégias morrem
Estudos clássicos de execução estratégica estimam que a larga maioria das estratégias bem formuladas falha não na concepção, mas na implementação. Uma prioridade sem responsável, prazo e indicador é apenas uma intenção. Para que a estratégia não morra na apresentação, cada prioridade precisa de se traduzir em objectivos concretos. As metodologias variam — dos clássicos objectivos SMART (específicos, mensuráveis, atingíveis, relevantes, temporizados) ao formato OKR (Objectives and Key Results), popularizado por Andy Grove na Intel e difundido por John Doerr — mas o princípio é comum: poucos objectivos, mensuráveis, com dono claro e revisão periódica.
Definições
- SMART
- Acrónimo que define os critérios de um objectivo bem formulado: Specific (específico — claro e sem ambiguidade), Measurable (mensurável — com indicador que confirma o cumprimento), Achievable (atingível — realista dado o contexto e os recursos), Relevant (relevante — ligado à estratégia e às prioridades), Time-bound (temporizado — com prazo definido). O conceito foi popularizado por George Doran em 1981 (Management Review) e é hoje o padrão mais difundido na gestão por objectivos. No contexto clínico, um objectivo SMART bem construído elimina a ambiguidade que permite a uma equipa invocar cumprimento quando o que aconteceu foi apenas actividade.
- OKR
- Objectives and Key Results — metodologia de definição de objectivos desenvolvida por Andy Grove na Intel nos anos 1970 e popularizada por John Doerr, que a introduziu na Google em 1999 (Measure What Matters, 2018). Cada objectivo (qualitativo, inspirador, com prazo) é acompanhado por dois a cinco resultados-chave (quantitativos, mensuráveis, que confirmam o cumprimento do objectivo). Os OKR distinguem-se dos objectivos SMART tradicionais por serem tipicamente ambiciosos (stretch goals), transparentes em toda a organização e revistos com frequência trimestral, não anual. No contexto de um serviço clínico, funcionam bem para iniciativas de transformação — não para a actividade rotineira, que continua a ser gerida por indicadores de processo e produto.
O mapa estratégico e o Balanced Scorecard
Para ligar a estratégia à execução de forma visível, Kaplan e Norton — cujo Balanced Scorecard (BSC) introduzimos no Capítulo 5 a propósito da função de controlo — propuseram o mapa estratégico: uma representação causal de como os objectivos se ligam através de quatro perspectivas. Na adaptação à saúde pública, a perspectiva financeira deixa de estar no topo e dá lugar ao valor para o doente e a população; abaixo dela, a perspectiva dos processos internos (que percursos temos de dominar), a da aprendizagem e crescimento (que competências e cultura precisamos de desenvolver) e a dos recursos (financeiros e de sustentabilidade) que tornam tudo possível.
Definições
- BSC
- Balanced Scorecard — ferramenta de gestão estratégica criada por Robert Kaplan e David Norton (Harvard Business School) e apresentada na Harvard Business Review em 1992, depois desenvolvida em The Balanced Scorecard (1996). Propõe que o desempenho de uma organização seja avaliado através de quatro perspectivas em simultâneo: financeira (ou de recursos, na adaptação para o sector público), clientes/doentes, processos internos e aprendizagem e crescimento. A sua grande contribuição é obrigar a ligar os indicadores operacionais à estratégia de longo prazo — evitando que a gestão se reduza à monitorização de métricas financeiras de curto prazo. Em saúde pública, a perspectiva do doente e da população ocupa o topo da hierarquia causal.
- mapa estratégico
- Ferramenta de Robert Kaplan e David Norton (Strategy Maps, 2004) que representa visualmente como os objectivos de uma organização se relacionam causalmente através das quatro perspectivas do Balanced Scorecard. Ao contrário da tabela de indicadores (scorecard), o mapa mostra a teoria de causa-efeito da estratégia: «se desenvolvermos esta competência (aprendizagem), melhoramos este processo (processos internos), que gera este resultado para o doente (valor) e é sustentável com estes recursos». A sua construção obriga a explicitar e testar a lógica causal da estratégia — e quando essa cadeia não se consegue desenhar, é sinal de que a estratégia ainda não está pensada até ao fim.
O mapa obriga a explicitar a teoria de causa-efeito da estratégia: se desenvolvermos esta competência, melhoramos este processo, que gera este resultado para o doente. Quando essa cadeia causal não se consegue desenhar, é sinal de que a estratégia ainda não está pensada até ao fim.
Já vi mais estratégias morrerem de excesso de ambição do que de falta dela. Cinco prioridades a sério, executadas até ao fim, transformam um serviço. Vinte prioridades no papel não transformam nada — só alimentam documentos que ninguém executa e dão álibi a quem não quer mudar.
O mapa abaixo aplica esta lógica ao caso da Dra. Helena. Lê-se de baixo para cima: os recursos financeiros e o investimento em telemonitorização (base) desbloqueiam as capacidades da equipa e dos sistemas (aprendizagem); essas capacidades tornam possíveis os processos clínicos diferenciados (programa de IC, referenciação rápida, telemonitorização); esses processos produzem os resultados que chegam ao doente (topo). Clique em qualquer objectivo para ver a cadeia causal completa e perceber o que cada um significa neste contexto.
Armadilhas estratégicas frequentes
Conhecer as ferramentas não chega; é preciso conhecer também os modos típicos de falhar. Seis armadilhas aparecem com regularidade na gestão estratégica de serviços clínicos, e vale a pena saber reconhecê-las antes de cair nelas.
- Confundir planeamento com estratégia. Produzir um documento extenso, cheio de metas, sem nenhuma escolha difícil lá dentro. O volume do documento é inversamente proporcional à clareza estratégica.
- Imitar o líder. Querer fazer o que o grande centro faz, na convicção de que é isso o «certo» — exactamente o erro que a Dra. Helena cometeu no início. Imitar quem tem mais recursos é a receita para perder sempre.
- Estratégia de gabinete. Desenhar a estratégia sem envolver quem a vai executar, e depois estranhar a resistência. Como vimos nos capítulos 4 e 6, a adesão constrói-se na participação, não no anúncio.
- Não rever. Tratar a estratégia como um documento que se escreve uma vez e se arquiva. Sem pontos de revisão e indicadores acompanhados — a função de controlo do Capítulo 5 —, a estratégia descola da realidade e ninguém dá por isso a tempo.
- Estratégia sem dono. Cada iniciativa estratégica precisa de um responsável nomeado — uma pessoa, não um grupo — com autoridade delegada e prazo explícito. Quando a responsabilidade é colectiva, é de ninguém. A reunião de revisão trimestral que pergunta «como corre a iniciativa X?» e não encontra uma resposta clara de uma pessoa específica é o sinal de que a iniciativa foi aprovada mas nunca atribuída. Sem um dono claro, as iniciativas esvaem-se por inércia — sem que ninguém precise de as contrariar abertamente.
- Muitas prioridades — que é o mesmo que nenhuma. Um serviço com oito ou dez prioridades estratégicas não tem estratégia — tem uma lista de desejos. Porter chamou a esta tentação «straddling»: tentar ocupar várias posições ao mesmo tempo resulta em nenhuma delas ser consolidada, e a posição original fica comprometida. A disciplina de limitar a três a cinco iniciativas reais, e rejeitar activamente tudo o resto, é tão importante quanto escolher bem as que ficam. No SNS, a pressão para incluir todas as áreas — para não ofender nenhuma equipa, para não fechar nenhuma porta — transforma muitos planos estratégicos em inventários complacentes sem escolhas visíveis.
Definições
- straddling
- Termo usado por Michael Porter («What is Strategy?», HBR, 1996) para descrever a tentativa de acrescentar actividades de uma posição estratégica diferente à posição actual, sem abdicar de nenhuma. O resultado é uma posição híbrida que tenta satisfazer todos os segmentos e, consequentemente, não é verdadeiramente diferenciada em nenhum. Porter argumenta que o straddling não só não cria vantagem como tende a comprometer a posição original — porque a organização aloca recursos entre posições incompatíveis sem dominar nenhuma. No contexto de um serviço clínico, manifesta-se quando o director diz «somos referência em ICC, mas também queremos desenvolver a arritmologia, e também temos de crescer em reabilitação cardíaca, e também...».
Execução e governação da estratégia
As secções anteriores cobriram a formulação da estratégia: analisar o terreno, escolher um posicionamento, definir prioridades. É a parte mais visível e, paradoxalmente, a mais fácil — formular estratégias bem redigidas está ao alcance de qualquer equipa motivada. O que mata a maior parte das estratégias não é a qualidade da análise: é a ausência de um sistema de execução que as mantenha vivas depois de aprovadas.
Estudos clássicos de execução estratégica — Hrebiniak (2005) e Mankins e Steele (HBR, 2005) — estimam que mais de 60% das estratégias bem formuladas falham na execução. No contexto hospitalar, as pressões do quotidiano — urgências, escalas, reuniões de produção — colonizam com facilidade o tempo e a atenção que deveriam ir para as iniciativas estratégicas. Sem uma arquitectura de governação que proteja esse espaço, a estratégia regride rapidamente para o planeamento operacional disfarçado.
Os três pilares da governação estratégica
- Dono e prazo para cada iniciativa. Cada prioridade estratégica tem um responsável nomeado — uma pessoa, não um grupo — com mandato claro, recursos mínimos identificados e prazo de conclusão ou de revisão. O responsável não tem de ser o director de serviço; deve ser quem está mais perto da execução. O director assegura as condições e remove obstáculos; o dono da iniciativa responde pelo progresso na reunião seguinte.
- Reunião de revisão estratégica trimestral. Distinta da reunião operacional semanal ou mensal, que resolve problemas de hoje. A revisão estratégica pergunta: as iniciativas avançam? Há obstáculos não previstos? O contexto mudou de forma a exigir ajuste de direcção? Uma hora por trimestre, com pauta fixa e preparação feita de antemão, é suficiente. Sem esta reunião, a estratégia existe apenas no documento.
- Painel de progresso simples e visível. Três a cinco indicadores, actualizados trimestralmente, que qualquer membro da equipa possa consultar. Não é o dashboard operacional do Capítulo 5 — é mais simples e mais estável. Estado por iniciativa (no caminho / em risco / parado), com o número actual e o número esperado. A visibilidade cria responsabilização sem necessidade de supervisão hierárquica permanente — e dá à equipa o contexto para perceber porque certas decisões são tomadas.
A comunicação da estratégia em cascata
Uma estratégia que o director conhece mas a equipa não conhece é uma estratégia que não existe na prática. A «cascata» estratégica é o processo pelo qual as prioridades do nível de serviço se traduzem em objectivos concretos para cada equipa e, sempre que possível, para cada profissional. Não é comunicação descendente — é co-construção: cada nível recebe a direcção e define, com autonomia real, como contribui para ela.
- Nível de serviço. O director define três a cinco prioridades estratégicas com indicadores e donos. Este é o documento de estratégia do serviço — público, curto, actualizado a cada revisão anual.
- Nível de equipa. Cada líder de equipa — coordenadora de enfermagem, assistente graduado sénior, coordenador de consulta — traduz as prioridades do serviço em dois a três objectivos concretos para a sua equipa. A pergunta orientadora é: «o que podemos fazer nós, com as nossas responsabilidades específicas, para contribuir para esta direcção?»
- Nível individual. Nos serviços com ciclos de avaliação de desempenho estruturados — SIADAP ou equivalente —, as contribuições individuais para as prioridades estratégicas entram nos objectivos negociados no início do ciclo. Onde esse mecanismo não funciona bem (que são a maioria), a conversa informal anual ou semestral pode servir o mesmo propósito — sem burocracia adicional.
Síntese
Estratégia não é ter um plano — é fazer escolhas sobre o que ser e o que não ser, e ter a disciplina de as manter quando a pressão do dia a dia empurra para a dispersão. No sector público, essas escolhas medem-se em valor para a população, não em vantagem competitiva, e têm de alinhar valor, legitimidade e capacidade. O processo tem uma sequência que vale a pena reter: compreender o meio envolvente (PESTEL, forças do sector), analisar com honestidade o interior (SWOT cruzada), escolher um posicionamento distintivo (foco, diferenciação, cadeia de valor), priorizar com critério as poucas iniciativas que importam, e executar com objectivos, donos e revisão — evitando as armadilhas previsíveis pelo caminho.
A estratégia não me deu mais recursos. Deu-me clareza sobre onde pôr os que eu já tinha. E descobri que metade da força de um serviço não vem do que ele faz — vem da coragem de dizer, em voz alta, aquilo que decidiu deixar de fazer.
Leituras Recomendadas
- Porter, M. E. «What is Strategy?». Harvard Business Review (1996)
O texto fundador do argumento de que estratégia é escolha e renúncia — não optimização de eficiência. Leitura obrigatória antes de qualquer exercício de planeamento estratégico, precisamente porque desmonta a confusão mais frequente entre os dois.
- Moore, M. H. Creating Public Value: Strategic Management in Government (1995)
A obra de referência para a estratégia no sector público. O triângulo estratégico — valor, legitimidade, capacidade — é a ferramenta de diagnóstico mais útil disponível para o gestor público que quer pensar estrategicamente sem ignorar as especificidades do contexto.
- Mintzberg, H. The Rise and Fall of Strategic Planning (1994)
A crítica mais influente ao planeamento estratégico formal — e o texto que introduz a distinção entre estratégia deliberada, emergente e realizada. Leitura recomendada para quem tende a confiar demasiado nos documentos e demasiado pouco no que emerge do terreno.
- Kaplan, R. S.; Norton, D. P. The Balanced Scorecard: Translating Strategy into Action (1996)
A obra original do BSC — ainda a referência mais útil para ligar a estratégia aos indicadores de execução. A adaptação para organizações de saúde pública (com o valor para o doente no topo, em vez da perspectiva financeira) é o ponto de partida recomendado.
- Kim, W. C.; Mauborgne, R. Blue Ocean Strategy (2005)
Complemento útil a Porter — onde Porter foca a competição por posicionamento, Kim e Mauborgne propõem criar espaços de actuação sem competição directa. Em saúde pública, a lógica do «oceano azul» aplica-se a percursos ou populações sistematicamente sub-servidas que nenhum serviço quis ou conseguiu desenvolver.
- Ansoff, H. I. Strategies for Diversification. Harvard Business Review (1957)
O artigo original onde Ansoff apresenta a matriz que leva o seu nome. Leitura curta e surpreendentemente acessível — útil para qualquer director de serviço que pondera expandir actividade e quer nomear o risco de cada opção antes de a decidir.
Descemos do plano das escolhas para o terreno onde elas vivem ou morrem: a cultura organizacional — a força invisível que decide se uma estratégia se cumpre ou se evapora, e que Peter Drucker terá resumido na frase «a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço».