Cultura Organizacional em Saúde

Os três níveis de Schein, o Competing Values Framework de Cameron e Quinn, segurança psicológica e patologias culturais — como ler e mudar a cultura de um serviço de saúde.

O Dr. Vasco dirige o Serviço de Urgência de um hospital de grande dimensão há cinco anos. No primeiro ano, trabalhou como trabalha um engenheiro competente: reescreveu protocolos, reorganizou escalas, instalou um painel de indicadores em tempo real. Os resultados melhoraram — ligeiramente, durante alguns meses. Depois estabilizaram. E então aconteceu algo que o desconcertou: mesmo quando os indicadores regressaram aos valores anteriores, os protocolos continuavam escritos, as escalas continuavam desenhadas, o painel continuava aceso. Nada do que tinha construído desaparecera. Apenas deixara de ser usado da forma como fora concebido.

«Percebi que havia uma segunda organização por cima da que eu tentava gerir», conta hoje. «Uma organização invisível, com as suas próprias regras, a sua própria hierarquia, a sua própria memória. E essa segunda organização era mais forte do que a minha. Quando as duas entravam em conflito, ela ganhava sempre — sem sequer precisar de argumentar.» O que o Dr. Vasco descobriu tem nome: cultura organizacional.

A definição mais rigorosa e mais útil pertence a Edgar Schein: cultura é o conjunto de pressupostos básicos partilhados que um grupo aprendeu ao resolver os seus problemas de adaptação externa e integração interna — suficientemente bem para ser considerado válido e, por isso, ensinado aos novos membros como a forma correcta de perceber, pensar e sentir esses problemas. A definição é densa, mas cada palavra conta.

O que é cultura organizacional — e porque decide tudo

A cultura não é o que a organização diz de si própria; é o que ela aprendeu e já não discute. Não são os valores emoldurados na entrada do hospital; são as respostas automáticas que os profissionais dão sem pensar, porque «aqui é assim que se faz». É transmitida não por documentos, mas por socialização: o interno aprende a cultura do serviço nas primeiras semanas, observando o que é elogiado, o que é tolerado e o que nunca se faz.

Chris Argyris distinguiu a teoria declarada — o que os profissionais dizem que fazem — da teoria em uso: o que de facto acontece sob pressão, quando as condições são difíceis e ninguém está a avaliar. A cultura real de um serviço é a sua teoria em uso, não o seu organigrama nem os seus cartazes. Pierre Bourdieu aprofundou o mecanismo com o conceito de habitus: disposições interiorizadas que orientam a acção de forma automática, antes de qualquer deliberação consciente. É por isso que a cultura resiste tanto à mudança por decreto — os reflexos já estão instalados, e instalaram-se por observação repetida, não por instrução.

Schein propõe que a cultura opera em três níveis de profundidade crescente — e só a intervenção no nível mais fundo produz uma mudança real. Vasco descobriu-o da pior forma: tudo o que construiu na superfície deixou de ser usado, porque a cultura invisível por baixo era mais forte.

Cultura médica vs. cultura institucional

Os hospitais não têm uma cultura — têm várias, em coexistência nem sempre pacífica. Já vimos, no Capítulo 6, que a burocracia profissional assenta em profissionais socializados fora da organização; a consequência cultural é que cada grupo profissional traz a sua subcultura, formada em anos de treino, e a instituição é o palco onde essas subculturas se encontram, cooperam e colidem.

A cultura médica tem traços profundos e notavelmente estáveis entre países e gerações. Valoriza a autonomia individual (o médico responde pelo seu doente, e a interferência externa é vivida como ameaça), a excelência técnica como fonte primária de estatuto, a responsabilidade individual levada ao extremo — com a contrapartida sombria de viver o erro como falha pessoal e vergonha, tema que retomaremos no Capítulo 27 —, o cepticismo perante a autoridade hierárquica e a identidade construída em torno da especialidade mais do que da instituição.

Dentro da própria cultura médica há hoje uma linha de fractura que qualquer director de serviço reconhece: a geracional. As gerações mais novas de médicos — socializadas noutro contexto social e com outras expectativas — valorizam de forma diferente o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, aceitam pior a lógica sacrificial que as gerações anteriores interiorizaram como natural, mudam de instituição (e de país, e de sector) com muito menos custo emocional. Ignorar esta fractura é perder metade do diagnóstico cultural.

A cultura institucional — a da administração e das estruturas de gestão — valoriza a previsibilidade, o cumprimento de regras e orçamentos, a equidade formal entre serviços e a resposta à tutela. É uma lógica radicalmente diferente da médica, e entre elas existe todo um espectro de outras subculturas: a da enfermagem, historicamente mais colectiva e processual; a dos técnicos de diagnóstico e terapêutica; a dos administrativos e dos farmacêuticos — cada grupo com a sua hierarquia, a sua linguagem e o seu critério de bom trabalho.

O médico gestor vive nesta fronteira. A sua principal competência cultural não é escolher um lado, mas traduzir em ambas as direcções: explicar ao clínico que um tecto orçamental é uma restrição real sobre a qual o serviço tem de trabalhar — e não má vontade da administração; e explicar à administração que um internamento acima do previsto é a consequência clínica inevitável de uma situação concreta — e não ineficiência.

O choque mais frequente dá-se entre a lógica do caso e a lógica do agregado. O médico pensa no doente concreto que tem à frente; o gestor institucional pensa em médias, taxas e orçamentos anuais. Ambas as lógicas são legítimas e necessárias — o Capítulo 9 mostrou que ignorar o agregado também tem vítimas, apenas menos visíveis. O papel do médico gestor não é escolher um lado: é ser o tradutor bidirecional entre as duas linguagens.

Na Urgência que herdou, o Dr. Vasco deparou-se com um conflito clássico de subculturas: a administração exigia o cumprimento dos tempos de triagem de Manchester, e os médicos mais experientes ignoravam sistematicamente os alertas do sistema, que classificavam como «burocracia para inglês ver». As reuniões produziam confronto estéril — a administração citava indicadores, os médicos respondiam com casos clínicos concretos em que a triagem formal teria atrasado um doente crítico. Cada lado tinha razão à sua escala, e era exactamente por isso que o impasse era irresolúvel por essa via.

O que inverteu a situação não foi mais pressão nem mais dados. O Dr. Vasco percebeu que estava a tentar resolver um problema de cultura com ferramentas de gestão — e parou. Deixou de citar indicadores em reuniões e começou a pedir aos médicos mais experientes que lhe ensinassem os casos em que a triagem falhava. Não para os contrariar, mas para lhes dar razão onde a tinham — e ganhar, por essa via, autoridade para propor alterações. Depois trabalhou com eles para redesenhar os alertas de forma a distinguir o sinal do ruído. A adesão subiu em seis meses mais do que em dois anos de circulares. A mudança não veio de fora; veio de dentro da lógica dos que tinham de a adoptar.

Tipos de cultura: um mapa para se situar

Para lá dos níveis de Schein, ajuda ter uma tipologia que permita caracterizar a cultura de um serviço e compará-la com a desejada. O modelo mais usado em investigação em saúde é o Competing Values Framework, de Kim Cameron e Robert Quinn, que cruza duas dimensões — orientação interna vs. externa, e flexibilidade vs. controlo — gerando quatro tipos culturais.

Nenhum tipo é «o correcto». Um bloco operatório precisa de mais hierarquia do que uma unidade de investigação; uma equipa de cuidados paliativos vive melhor com traços de clã. O diagnóstico útil é duplo: que mistura temos, e que mistura precisamos para a estratégia que escolhemos no Capítulo 10. O desalinhamento entre cultura e estratégia é, regra geral, resolvido pela cultura — daí o pequeno-almoço de Drucker.

Diagnosticar a cultura do seu serviço

Antes de querer mudar seja o que for, o gestor precisa de ler a cultura que tem — e ler cultura é uma competência técnica, não um palpite. Três métodos complementares, por ordem crescente de formalidade:

Um quarto método merece destaque pela relação custo-benefício: as rondas de escuta regulares — na literatura anglófona, leadership walkarounds — em que o director percorre, com periodicidade fixa e sem agenda punitiva, os postos de trabalho, perguntando apenas «o que vos está a dificultar a vida esta semana?» e «o que precisariam de mim?». Bem feitas, produzem informação que nenhum indicador captura e comunicam, pelo próprio gesto, que a distância hierárquica não é intransponível.

Impacto na performance: a evidência

Poderia pensar-se que a cultura é um tema soft, agradável para discursos mas sem consequências mensuráveis. A evidência diz o contrário, e com particular força em saúde. O estudo de referência é o programa inglês liderado por Michael West, cuja investigação em centenas de organizações do NHS demonstrou associações robustas entre o clima organizacional e os resultados clínicos — incluindo a célebre correlação entre o bem-estar e o envolvimento dos profissionais e a mortalidade hospitalar ajustada pelo risco.

O mecanismo não é misterioso. A cultura determina se o enfermeiro interrompe o cirurgião quando vê algo errado, se o interno pergunta quando tem dúvidas, se o erro é reportado ou escondido, se a informação flui nas transições de cuidados. Amy Edmondson, de Harvard, deu-lhe o nome que ficou — segurança psicológica: a convicção partilhada de que a equipa é um lugar seguro para assumir riscos interpessoais, como admitir dúvidas, pedir ajuda ou apontar problemas.

Um corpo de investigação mais recente quantificou algo que a intuição já suspeitava: a rudeza degrada objectivamente o desempenho clínico. No estudo experimental de Arieh Riskin e colegas (Pediatrics, 2015), equipas de neonatologia expostas a comentários rudes de um observador externo, durante uma simulação, tiveram desempenho diagnóstico e procedimental significativamente pior do que as equipas de controlo — não por desmotivação, mas por efeito cognitivo directo: a incivilidade activa a vigilância da ameaça e reduz a largura de banda cognitiva disponível para o problema clínico.

Há ainda a ligação, cada vez mais documentada, entre o tipo de cultura e a retenção. Num SNS em competição aberta com o sector privado por profissionais escassos, a cultura do serviço é um factor de retenção que não aparece no recibo de vencimento mas pesa quase tanto como ele — tema que o Capítulo 22 desenvolverá a propósito do problema do burnout e da sustentabilidade das equipas. Um serviço com boa cultura retém com salários iguais; um serviço tóxico não retém com salários melhores.

Aiken e colegas publicaram em 2012 no The Lancet um estudo com cerca de 30 000 enfermeiros em 11 países europeus e nos EUA: os profissionais a trabalhar em hospitais com climas organizacionais desfavoráveis apresentavam o dobro da taxa de burnout e referiam, com significância estatística, maior intenção de saída no prazo de um ano — independentemente do salário. No NHS, a análise longitudinal dos dados do Staff Survey, sistematizada por Michael West e Jill Dawson, mostra que os hospitais no quartil inferior de envolvimento dos profissionais têm taxas de vagas por preencher sistematicamente mais elevadas do que os do quartil superior. Quanto ao custo directo da rotatividade: estimativas concordantes entre estudos situam o custo de substituição de um enfermeiro entre 75 % e 100 % do respectivo salário anual — recrutamento, formação, perda de produtividade no período de integração e cobertura por horas extraordinárias. Num serviço que perde dez profissionais por ano por razões culturais, o impacto financeiro directo é facilmente calculável.

Como se forma — e como se muda — uma cultura

A cultura forma-se sem intenção declarada — e é aí que começa a dificuldade. Ninguém decide qual vai ser a cultura de um serviço: ela emerge da acumulação de decisões, de comportamentos e de histórias partilhadas ao longo do tempo. Perceber como se forma é condição prévia para a poder influenciar. Schein identifica os mecanismos primários pelos quais os líderes moldam cultura, e a lista é desconfortável porque revela que o gestor comunica cultura sobretudo pelo que faz — não pelo que proclama:

Os mecanismos de Schein são o presente — o que o líder actual faz hoje. Mas a cultura de um serviço é também o passado: cada crise sobrevivida, cada director anterior, cada promessa cumprida ou traída, cada conflito resolvido ou enterrado vai deixando um depósito. O serviço que hoje resiste à mudança não está a ser irracional — está a aplicar as lições que aprendeu com a experiência colectiva de anos. Perceber a história do serviço (quem chefiou, o que correu mal, o que nunca foi resolvido, o que foi prometido e não aconteceu) é uma condição prévia para perceber a cultura actual. O director que trata o passado como irrelevante tropeça repetidamente no que não percebe.

Há ainda um facto estrutural que complica o quadro: num serviço hospitalar não existe «uma» cultura — existem várias, em convivência tensa. Glouberman e Mintzberg descrevem o hospital como um espaço habitado por quatro mundos com formações, lealdades e sistemas de valor distintos: medicina, enfermagem, gestão e comunidade. Cada um tem a sua lógica própria e os seus heróis próprios. O director de serviço é uma das poucas figuras que atravessa estas fronteiras — e por isso tem um papel de tradução que vai muito além da autoridade hierárquica: facilitar que estas subculturas se compreendam o suficiente para cooperar, sem exigir que se fundam numa identidade única que nunca foi real.

O terceiro ângulo é temporal: a cultura forma-se lentamente e muda ainda mais devagar — com duas excepções:

Para além dos mecanismos de Schein, o gestor dispõe de instrumentos mais finos para influenciar comportamentos concretos:

Uma objecção legítima surge com frequência: «eu não mando na cultura do hospital». É verdade — e é irrelevante para o que um director de serviço pode fazer. A investigação sobre clima organizacional demonstra sistematicamente que a experiência cultural dos profissionais é determinada sobretudo pelo microclima da sua equipa imediata e pela qualidade da chefia directa — muito mais do que pela cultura corporativa do hospital.

O director de serviço não muda o hospital. Tem, porém, poder quase total sobre o clima do seu serviço: as reuniões que convoca e como as conduz, a forma como reage ao erro, os critérios com que distribui oportunidades e reconhecimento, o que modela pelo seu próprio comportamento. São exactamente os mecanismos de Schein — e todos eles estão dentro do seu raio de acção. É uma das poucas áreas da gestão em que a desculpa «não depende de mim» é, na maioria das vezes, falsa.

O caso do Dr. Vasco ilustra como estes instrumentos funcionam na prática. Quando assumiu o serviço, a taxa de adesão à higiene das mãos — medida por observação directa, como recomendam os programas de qualidade — estava nos 38%. Era um número conhecido, comum em hospitais europeus antes de intervenções estruturadas. O reflexo habitual seria organizar uma formação ou afixar cartazes. Resistiu a esse reflexo porque percebeu que o problema não era de conhecimento: toda a gente sabia que devia lavar as mãos. O problema era de conveniência e de visibilidade.

Em seis meses, a taxa subiu de 38% para 81%. «Não fiz uma única formação sobre higiene das mãos», resume o Dr. Vasco. «Tornei fácil chegar ao dispensador, mostrei os números à equipa, e fiz eu próprio o que pedia. O resto veio por si.» O que o caso demonstra não é talento individual de gestão — é a aplicação consistente de três instrumentos, num contexto real, por um director que percebeu que a cultura se muda pelo comportamento, não pelo discurso.

Armadilhas culturais: os padrões que destroem serviços

Assim como há tipos de cultura, há patologias culturais — padrões reconhecíveis que degradam silenciosamente o desempenho e a segurança. Quatro merecem lugar na vigilância permanente de qualquer director:

Estas patologias raramente aparecem nos inquéritos formais — detectam-se pela observação e pelas conversas de proximidade, e sobretudo pelo que os profissionais dizem quando acham que não conta. O director que as identifica cedo tem hipótese de as interromper; o que as descobre tarde descobre-as, em regra, num relatório de evento adverso grave ou numa vaga de saídas.

Culturas em colisão: fusões, integrações e ULS

Há um cenário em que a gestão cultural deixa de ser pano de fundo e passa a ser o problema central: a integração de organizações com culturas diferentes. A generalização das ULS — que o Capítulo 2 descreveu no plano estrutural — é exactamente isso no plano cultural: hospitais e agrupamentos de centros de saúde, com histórias, ritmos, hierarquias e pressupostos distintos, reunidos sob a mesma estrutura de governação, com a integração cultural deixada ao acaso. A literatura sobre fusões é unânime num ponto: a maioria falha não por má estratégia, mas por incompatibilidade cultural não gerida.

Para o médico gestor no terreno, três princípios práticos: